BH tem metrô sim

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Mudei para BH em 2010 e dei as mãos ao maior dos companheiros: o Google. Eu não sabia a diferença entre Nova Lima e Venda Nova, se a UFMG era perto do Barreiro e não fazia a menor ideia de como chegar na Praça do Papa. Nos tornamos, então, inseparáveis.

Certo dia, novatíssima no bairro Dona Clara, fui convidada para ir ao Boulevard Shopping. Meu amigoogle mandou a letra: caminhada até a estação de metrô 1º de maio – sentido Eldorado – descer na estação Santa Efigênia. Atravessar o rio Arrudas (o querido não especificava como, mas eu imaginava que entre passarela e barco a remo, algum meio haveria). Nóis.

Decoradas as viradas à esquerda e à direita, cheguei em uma rua de terra. Era noite. Caminhei rápido. “Vamos juntas?” ainda não era um movimento/página no Facebook, mas eu já não era besta e me aproximei de uma senhora que por ali também passava. Ela se assustou com meu movimento, eu sorri bege e puxei papo: “aqui é perigoso, moça?”. Passávamos por cima de um córrego (filho do Ribeirão do Onça, hoje sei), água cheia e turva. “Já vi puxarem bolsa de mulher, bater em mulher, diz que jogam corpo nesse pedaço de rio” – foi a resposta que arrepiou os cabelos da noite.

Lá fui eu. Em frente. Depois naquela caralha de passarela alta da estação Santa Efigênia, os carros passando velozes na Andradas, contrários aos colchões felpudos que eu preferia ter sob meus passos. Fui naquela e em mais muitas vezes.

A 1º de maio continua sendo grande amiga, a rua de terra foi asfaltada, agora tem supermercado na esquina, nunca ouvi-vi caso de violência por ali. Fiz estágios nos bairros Floresta e Santa Inês, usando as estações Central e Santa Inês todos os dias. Visitei tio pela estação Horto, peguei carona na PUC pela Gameleira, ocupei a Câmara pela Santa Tereza, trabalhei pela Calafate, manifestei pela Lagoinha, doei sangue pela Vilarinho, passei o domingo com a família depois de descer no Eldorado e fiz compras de Natal no Minas Shopping.

Ouço, no entanto, desde os tempos de faculdade, pérolas sobre o metrô. Lembro quando contei numa roda que havia ido nãoseionde com ele. Um colega, belorizontino, escola particular, zona sul (nada contra, até tenho amigos que são), me disse: “SÉRIO? Mas não é perigoso?” Eu nem soube responder.

E então @s amig@s e colegas dizendo que não existe metrô em BH. “Ah, porque não é metrô, é trem” – bem, eu falo “aprochegar” e “desbeiçado”, então não me importo exatamente com nomenclaturas. Seguimos. “Tem poucas linhas e não atende e {insira aqui palavras educadamente revoltadas} e lkajsanwawbnab e (…) e SAVASSI”. A gente sempre chega na Savassi. Não tem metrô porque não tem metrô – na Savassi.

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Se eu estou defendendo o sistema tosco, júnior e insuficiente de trens urbanos de BH/Contagem? Definitivamente não. Sabemos que nosso transporte público maltrata @s trabalhador@s e que um metrô decente poderia nos poupar dos combos de passagem cara & ônibus lotado que demora para chegar no ponto e para chegar em casa. Sabemos que existe uma máfia que nos mantêm enlatados, cansados e pagantes. Mas se BH não tem metrô, eu e uma parte da população andamos surfando numa viagem cósmica maluca nos últimos 6 anos.

Segundo dados da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), o metrô de BH (ou como queiram chamar) atende 210 mil passageir@s/dia. De acordo com o último censo do IBGE (2010), a capital mineira possui 1,433 milhão de habitantes, o que significa que o trem atenderia 14,65% da população diariamente. Se somarmos a população de Contagem (380 mil pessoas), que é atendida nas estações Cidade Industrial e Eldorado, a porcentagem cai para 11,6%. É muito pouco, realmente. A rede metroferroviária de SP (Metrô, CPTM e ViaQuatro) transporta cerca de 7,5 milhões de pessoas por dia, o que significa 66,3% da população da cidade de São Paulo e 35,38% de toda a Grande São Paulo (que soma 39 municípios).

Acredito, portanto, que a questão que levanto neste texto seja muito mais simbólica que de cunho prático. Sob o prisma da mobilidade urbana talvez atender 11,6% de uma população equivalha a não existir. Mas agora convido quem me lê a uma ficção científica: e se, no lugar de Eldorado-Vilarinho, o metrô fizesse Centro-Jardim Canadá?

Mantemos a Estação Central, que é pra ninguém perder o prumo. Dali, o metrô sobe Bahia, para lá pelo Maletta. Praça da Liberdade. Um pulo no Lourdes. Praça da Savassi. Pátio Savassi. Entra para o Sion, ali pelo Colégio Santa Doroteia. Vai ao Cruzeiro, shopping Plaza Anchieta. Toca para o BH Shopping. Dá uma moral no Belvs. Parada na Torre de Nova Lima. Finaliza no Jardim Canadá, ali perto do Verdemar. Este trajeto equivale em distância ao percurso Eldorado-Vilarinho (cerca de 30km). Levaria trabalhador@s e estudantes também, mas em outras áreas da cidade – onde os privilégios, por acaso, têm mais casa. E aí? Será que ainda assim “não teríamos metrô”?  

Já me contra-argumentaram que, bem, se o metrô de Belo Horizonte não chega na Pampulha, mais famoso complexo turístico da cidade, ele é falho e ponto. Divinha? A estação 1º de maio é vizinha do bairro Dona Clara que, oficialmente, é da regional Pampulha. O metrô tem estação nas zonas norte, oeste, leste, noroeste, nordeste e central. Leva às duas rodoviárias da cidade, à área hospitalar, a universidades como PUC São Gabriel, PUC Coração Eucarístico, Una e CEFET. Vai até uma das cidades da Região Metropolitana pelo mesmo preço (barato) com que roda dentro da capital. Conecta o centro ao extremo norte da cidade. Seu erro maior, no entanto, me parece ser não dar as caras pela zona sul.

Belo Horizonte merece investimentos reais nas linhas de metrô e no transporte público como um todo. Se mover pela cidade de forma eficiente e humana urge. Do Oiapoque à rua Jacuí; passando por todas as zonas, pela Last e também pela Sul – sim, por favor. Só convoco a rapeize belorizontina para o importante deslocamento para o discurso de + metrô, e não só + metrô-para-mim. 😉


One thought on “BH tem metrô sim

  1. Trabalho na Cidade Administrativa e, embora aqui pareça longe de tudo, o acesso é bastante fácil pelo metrô (que vem até a Estação Vilarinho). Num dia de greve de ônibus, uma colega (moradora da Savassi há 7 anos, desde que se mudou para BH) chegou aqui revoltada porque gastou mais de 70 reais com o taxi. Perguntei por que ela não veio de metrô (pegando taxi somente até a Praça da Estação ou até a estação Santa Efigênia, não sei, e metrô dali em diante – o que não somaria nem 15 reais) e ela me olhou apavorada. Ficou branca uns segundos e perguntou “metrô? mas onde?”.
    Todo mundo olhou meio incrédulo, mas era isso mesmo. Ela não sabia que BH tem metrô.

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