Eu só queria chegar em casa e dormir, mas esbarrei com você no meio do caminho

Depois de uma segunda-feira pesada, daquelas que o tempo passa tão rápido quanto discursos de colação de grau e as obrigações são tão divertidas quanto arrancar o siso, tudo o que eu queria era me teletransportar para casa. Estalar os dedos na redação e – plim! – surgir deitada na minha cama. Contudo, como mera mortal que sou, precisei pegar o metrô e suas baldeações para chegar ao meu apartamento.

Foi então que, como se o dia já não tivesse sido desgastante o suficiente, no meio do caminho, esbarrei com você. Ou melhor, com uma lembrança sua. Te vi ali, na plataforma da Consolação, com a blusa social toda amarrotada, me esperando com a maior cara de sono do mundo. Mesmo visivelmente cansado, seu rosto abriu um sorriso enorme ao me ver. Essa cena poderia salvar o meu dia, se não fosse apenas uma recordação da última vez que você sorriu com sinceridade pra mim. Quatro meses atrás.

Logo o metrô chegou e eu, enfim, voltei para casa sem mais fortes emoções. A noite correu bem, até meu corpo exausto finalmente cair na cama e minha mente resolver, outra vez, te visitar no passado. Naquele dia, o meu plano original era ir a uma festa com meus amigos. Eu nem estava com tanta vontade, queria mesmo era passar a última noite em sua companhia antes de ficarmos duas semanas separados por causa das festas de fim de ano. Porém, você sabe, não sou do tipo que desmarca compromissos.

Então, imagine a minha alegria quando, em comum acordo, eu e meus amigos decidimos cancelar a balada. A primeira coisa que fiz foi te mandar uma mensagem pedindo para me encontrar. Você nem hesitou. Saiu na mesma hora de onde estava e foi me ver. E essa foi a última vez que você me encontrou de imediato, sem se questionar se realmente deveria ir.

Se eu tivesse consciência que aquela seria uma noite de últimas vezes tão importante, com certeza teria te aproveitado melhor. Ao invés disso, passamos a noite discutindo por bobagem, dormimos emburrados um com o outro e, assim, destruímos de vez qualquer possibilidade de sermos felizes juntos. Nós nem percebemos isso, mas foi naquele dia que tudo mudou.

Eu viajei, você viajou. O tempo afastados só piorou tudo. Depois disso, você nunca mais aceitou os meus convites com prontidão. Eu, desesperada, tentei tapar os buracos que cavamos tão profundamente dentro de nós com as nossas inseguranças durante aquelas duas semanas separados. Não funcionou. Eles já estavam entranhados demais e, com o passar das semanas, só se multiplicaram.

Lembrar de tudo isso não faz sentido nenhum agora que, depois de doloridas idas e vindas, o “eu e você” enfim acabou. É bem provável a gente nunca mais se encontre e, toda vez que penso nisso, eu choro um pouquinho. Sua ausência ainda me machuca. Já você, imagino, conseguiu seguir em frente. Nunca mais me ligou de madrugada, nem respondeu às últimas mensagens que mandei.

Eu venho tentando fazer o mesmo, virar a página. Alguns dias são melhores que outros, confesso. E sei que daqui a quatro anos esse sofrimento provavelmente não fará o menor sentido. No entanto, em uma segunda-feira desestimulante como esta, tudo o que eu queria era me encontrar com você na plataforma da Consolação e te dar um abraço tão intenso e demorado quanto as nossas ansiedades. Daquele jeito que fizemos tantas vezes em dias de semana atribulados.

Você não faz ideia de quantos dias ruins foram salvos por noites alegres em sua companhia. No momento, porém, só depende de mim me fazer feliz. Sempre foi assim, afinal. Seu cabelo comprido e suas camisas sociais fazem tanta falta quanto eu imaginava, mas vai passar, eu sei. Toda vez passa. Agora é melhor eu dormir que já são quase três da madruga e essas reflexões não vão me levar a nada. A boa notícia é: amanhã é um novo dia. Melhor que hoje, eu espero. Um pouco mais sonolento, talvez. Definitivamente, sem você.

#ViajoSozinha

Aos 18 anos, viajei para Buenos Aires com 3 amigas. Aos 19, éramos 12 mulheres conhecendo Punta del Este. Aos 20, visitei algumas amigas na Europa sozinha, enquanto morava em Londres sozinha, dividindo apartamentos com pessoas desconhecidas. Minha última viagem internacional foi um retorno a Baires. Fiquei hospedada no mesmo albergue da primeira vez, sozinha. ‪#‎viajosozinha‬ sim, moro em SP com duas amigas, sempre andei pra cima e pra baixo desacompanhada. Isso jamais deveria ser justificativa para assassinato/estupro, mas, infelizmente, se eu fosse violentada, a sociedade colocaria culpa na minha independência. Porém, minha liberdade ninguém me tira, nem mesmo o medo. Que as mulheres tenham cada vez mais coragem de ir e vir, e que os homens aprendam que não somos vidas descartáveis. A luta continua, todos os dias. Viva o dia 8 de março, viva as mulheres!

12841255_10154570352011258_917487775797120817_o

Em memória das argentinas Maria José Coni, 22 anos, e Marina Menegazzo, 21 anos, assassinadas no Equador enquanto faziam um mochilão pela América Latina. Vocês não serão esquecidas. 

Maria José Coni, de 22 anos e Marina Menegazzo de 21

Na dúvida, ame. Apenas não se deixe afogar.

na duvida ame

Quando eu te vi pela primeira vez, eu tive certeza que estava diante do homem mais bonito do mundo. Certeza absoluta. Por isso, tive medo quando você se mostrou tão interessado em sair comigo pela primeira vez. Um homem tão bonito assim não poderia estar realmente atraído por mim. Então eu fugi.

No entanto, o destino sabe muito bem onde nos reencontrar quando tentamos desviar dele e, repentinamente, você reapareceu. Meses depois. Mais lindo do que nunca. E, dessa vez, eu resolvi dar uma chance para nós dois. Um encontro, afinal, que mal faz?

Você era ainda melhor do que eu pensava. Sua empolgação em defender as suas ideias, o seu olhar carinhoso ao me observar, seu modo de se vestir tão diferente do meu. E logo ali, na primeira cerveja, eu me apaixonei. Intensamente, bizarramente, inesperadamente.

Fui dormir torcendo para que a gente se visse outra vez. Logo. O mais rápido possível. Assim, imagine a minha felicidade quando, no dia seguinte, você disse que, por você, a gente já se via naquela noite. Um sorriso imenso se tatuou no meu rosto. Porém, preferi esperar mais um dia. Ir com calma.

Uma noite depois, já estávamos juntos outra vez. O que se passava dentro de mim era tão impetuoso, tão assustadoramente real que, a cada segundo ao seu lado, eu sentia mais medo por carregar tão forte sentimento no meu peito. Das outras vezes em que havia me sentido assim, meu coração se estraçalhou tão seriamente que nunca me recuperei cem por cento.

Não demorou muito para você dizer que me amava. Levado pelos vários copos de cerveja, pensei. A minha vontade era de te beijar até acabar o ar dos meus pulmões e colar a minha pele na sua de uma forma que a gente não se soltasse nunca mais. No entanto, meus traumas me fizeram responder que era melhor a gente ir mais devagar. E hoje sei que, naquele dia, eu te matei um pouquinho por dentro.

O tempo foi passando e eu fui tendo cada vez mais certeza: eu não poderia mais viver sem você. Te imaginei ao meu lado em todos os momentos futuros da minha vida, me imaginei ao seu lado em todos os desafios que você precisasse enfrentar. Ia ser eu e você para sempre. Eu só não tinha coragem de demonstrar isso. Sabia que, uma vez aberto o meu coração, não tinha volta e você poderia fazer o que quisesse com a minha alma. Era melhor me certificar que, pela primeira vez na vida, eu pisava em terra firme.

Com as comemorações de fim de ano, precisamos nos afastar por um tempo. Ambos já tínhamos feito planos para aquela época antes de nos conhecermos. Eu fui para a minha cidade, você foi para a praia. O que era para ter sido apenas duas semanas de saudade, transformou o nosso amor em desespero. Para os dois. A minha insegurança, à essa altura, havia te contagiado e você perdeu as forças que, com muito esforço, tentava manter para ter confiança de que tudo daria certo. Ficamos ambos vulneráveis. Fracos.

Era paixão demais, fazendo os receios e a distância transformaram os nossos diálogos em enormes falhas comunicativas. Eu não te entendia e você interpretava tudo o que eu dizia de outra maneira. Cansada de sofrer e com medo de os nossos bate bocas nunca terminarem, resolvi dar um fim a nossa história. “Você tem certeza isso?”, você me perguntava sem parar. Não. Nenhuma. Mas respondi que sim.

Os dias seguintes se passaram com a mesma velocidade com que uma missa se arrasta. Você mandando mensagens: saudades. Eu tentando ao máximo não me sentir afetada pelas suas palavras: vai passar. Então descobri que você já estava com outra pessoa. Na praia, as paixões se incendeiam rápido, não é mesmo? Ela era uma menina tão cheia de inocência e vulgaridade que se meteu em lugares do seu Facebook que me pertenciam. Fiquei possessa.

Fui ao perfil dela e encontrei, sem nenhuma dificuldade, as suas palavras. Te amo, você dizia. Te amo. Meu coração explodiu. Enquanto meu sangue se espalhava sobre todo o meu corpo, minha cabeça dizia “Eu sempre soube que isso ia acontecer. Não devia ter caído nessa. Como posso ter sido tão estúpida?” repetidas vezes, sem parar. Me culpei intensamente por um problema seu, não meu. Uma fraqueza sua.

No entanto, o que você não sabia era seu poder de me deixar assim. Eu nunca deixei claro o quanto eu te amava. Sempre tentei te manter o mais longe possível dos meus sentimentos. Por mais carinhosa que eu fosse, você não conseguia perceber o amor que eu sentia. Foi necessário ver meu coração destroçado por sua causa para compreender toda a imensidão que havia dentro de mim.

Foi preciso me destruir por dentro para você perceber o meu amor. Por isso te perdoei. Demorou alguns dias, até eu limpar todo o sangue que havia sobre mim. Contudo, quando você se mostrou tremendamente arrependido e simultaneamente machucado com aquela situação, decidi relevar. Com isso tudo, percebi que o medo não nos protege de nada, só da felicidade, e me empenhei em retomar a nossa história. Catei os pedaços do meu coração e te entreguei todos eles para que pudéssemos ser felizes.

Não aconteceu. Nós nos machucamos de um jeito tão visceral que os meses seguintes só serviram para nos destruir ainda mais. Dessa vez, eu tentei ser mais paciente. Era sua vez de estar inseguro. Suportei seu desprezo, aceitei todos os sinais de afeto. Me entreguei completamente, de um jeito que não me entregava assim desde os meus 14 anos, quando me apaixonei pela primeira vez.

Defini: eu era sua e você era meu. Nada ia nos separar. Eu aguentaria todos os seus maus momentos até que você voltasse a ser o cara que não tinha medo de me amar. Tentei ser forte. Perdi a fome. Fui dormir todas as noites chorando. E não me importei. O fato de você me amar e de eu sentir o mesmo com a mesma intensidade bastava.

Nós, muito em breve, voltaríamos a ser feliz. Eu tinha certeza disso. Seria uma felicidade tão grandiosa que o céu nunca mais ficaria escuro durante o dia e as noites seriam cada vez mais estreladas. Uma felicidade tão imensa que qualquer um que a presenciasse seria feliz para sempre também. Uma felicidade nossa, só nossa, que mudaria o mundo.

No entanto, assim como eu aprecio a alegria, você é encantado pela melancolia. Não consegui vencer o seu amargor pela vida e percebi que continuar nessa batalha não te faria mais contente, apenas me deixaria mais infeliz. Isso seria uma derrota para nós dois. Foi, então, que decidi ir embora. Por mais que eu quisesse ficar. Para sempre. A vida toda. Precisei partir. De uma vez por todas. Para o bem de nós dois.

Agora estou aqui completamente sem você. O meu coração nunca tinha ficado tão pequeno. É a primeira vez que amo com cem por cento de reciprocidade, porém de uma forma tão destrutiva. Nós ainda nos pertencemos, eu tenho certeza disso. Só não vamos mais ficar junto. E o motivo não poderia ser mais surreal: somos extremamente apaixonados um pelo o outro. Um sentimento tão absurdo que não soubemos como cuidar dele sem nos afogar.

Preferi subir em meu barco e partir antes que não houvesse mais nenhum traço de contentamento em meu corpo. Espero que agora seja mais fácil para você subir em seu barco também, pois única coisa que me faria mais feliz do que viver ao seu lado, seria você finalmente encontrar algum tipo de felicidade. Boa sorte.

Saudades. Te amo.

* imagem do filme “Mr. Nobody”. 

2015: um segundo por dia

Mudar para São Paulo. Começar a trabalhar na empresa que sempre sonhei. Dividir um apartamento ao lado do metrô com duas amigas. Casamento da minha irmã. Conhecer pessoas incríveis. Ter experiências inesquecíveis. 2015 foi extremamente sensacional. E aqui vai um vídeo de agradecimento a esse ano que foi um marco fundamental na minha vida:

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

Processed with VSCOcam with f2 preset

Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Estou perdendo o medo de avião

IMG_4109

Quando eu era criança, achava a maior graça em ver meu pai, de olhos fechados, segurando firme no braço da poltrona do avião sempre que passávamos por uma turbulência. Ele tem pavor de viajar de avião. Sempre teve. Eu não entendia o motivo de tanto desespero, afinal, toda vez que voávamos nas férias, chegávamos sãos e salvos ao nosso destino sem nenhum problema.

Aí eu cresci. Veio o 11 de setembro, o acidente da TAM em 2007, e algumas outras histórias de desastres envolvendo aviões. Percebi que meu pai tinha razão em ter medo. No fim das contas, essas naves não eram tão seguras quanto eu pensava. Mesmo com os baixos índices de mortes por desastre aéreo, elas não eram nulas – e eu não queria ter esse azar. Passei a também ter medo de voar.

Nos últimos anos, quando começava uma turbulência, eu me segurava nos braços da poltrona tal qual meu pai. Um pouco mais corajosa que ele, ficava de olhos abertos. Ver as outras pessoas tranquilas, fosse cochilando, lendo um livro, ou dando risada com o passageiro ao lado, me deixava um poucos mais desesperada. Será que elas não se preocupavam com a forte iminência da morte?

A pior época foi quando me preparava para meu intercâmbio em Londres. Eu ia morrer à caminho de realizar meu sonho. Certeza. Era felicidade demais para dar certo. No mesmo oceano em que caiu o avião da Air France em 2009, o meu também se afogaria. Cheguei a chorar diversas vezes prevendo erroneamente esse acontecimento. Com lágrimas escorrendo pelos meus olhos, contei isso para uma amiga. Ela, claro, disse que eu estava louca. Ia tudo dar certo. E deu.

Nunca mais me desesperei antes da hora, mas só conseguia ficar tranquila depois que a decolagem estava completa e os avisos de atar os cintos se apagavam – até a turbulência interromper o meu sossego. Para evitar todo esse drama, tentava dormir assim que entrava na aeronave. Algumas vezes consegui, outras não. Sobrevivi a todas.

O fato é: só este ano – por estar morando em São Paulo – já viajei de avião umas 10 vezes. Notei que tenho estado mais tranquila nessas ocasiões. Já me maquiei para uma festa de 15 anos enquanto voava e, quando a nave tremeu, o que me incomodava era precisar interromper o meu trabalho para não me borrar, por exemplo. Continuo dormindo enquanto viajo, mas isso se deve mais ao horário dos voos do que ao meu medo. Este ano, voltei a me sentir em casa dentro de um avião.

Só não digo que me livrei por completo desse medo – meio herdado do meu pai, meio gerado pelos noticiários –, porque uma coisa não mudou. O primeiro pensamento que me vem a cabeça, sempre quando a aeronave pousa, continua sendo: estou viva. E que seja sempre assim.

Fora do Ninho: agora eu tenho canal no Youtube sobre minha vida em São Paulo

Processed with VSCOcam with f2 preset

A vida aqui em Sampa tá uma loucura. Tanto que nem tempo para escrever meus textos pessoas tenho tido tempo. É só matéria, notinha, vídeo… Daqui a pouco eu volto a abrir meu coração por aqui, não se preocupem.

Pelo menos tenho uma novidade! Comecei um canal no Youtube. Com apoio do site que eu trabalho, a Elástica, eu tenho produzido alguns vídeos sobre sair da casa dos pais e arrumar o próprio canto. Para acompanhar, é só entrar no blog que eu mantenho por lá.

O meu último vídeo foi sobre vizinhos. Foi o mais a cara do PVSC que eu publiquei, por isso queria compartilhá-lo com vocês. Tem mensagem importante nele!

Gostou? Se inscreve no canal que eu vou tentar atualizá-lo sempre. <3

Até em breve.

O lugar mais aconchegante do mundo

Eu sempre quis ter um canto meu. Divi o quarto com a minha irmã mais velha por muitos anos na casa da vovó, até ganhar individualidade, aos 9 anos de idade, com a mudança para a nossa própria casa. Desde então, a parede já foi coberta por posters de banda de rock, fotos tiradas por mim, adesivos de libélulas, tinta das mais variadas cores — um de cada vez, ou tudo misturado. Minha cama nunca passou mais de quatro meses na mesma posição, bem como todo o resto da mobília e apetrechos.

Em Londres, tive cinco quartos durante os seis meses que fiquei por lá em 2011.

1) Cubículo de 2m² em casa de família desconhecida – duração: 2 semanas;

2) quarto cheio de poeira e fotos da mesma família desconhecida – duração: 2 semanas;

3) sofá no quarto de casal de uma polonesa amiga da amiga da amiga da minha irmã – duração: 2 semanas;

4) quarto dividido com duas italianas desconhecidas em Portobello Road – duração: 3 meses;

5) flat dividido com amiga paulista, cama e fogão coexistiam no mesmo espaço – duração: 1 mês e meio.

Voltei de lá mais apegada ao meu quarto mineiro do que nunca, mas louca de vontade de ter meu próprio apartamento. Enquanto sair da casa dos meus pais não era uma opção, fui transformando o meu canto no lugar mais aconchegante do mundo.

Em janeiro deste ano, estava me organizando para mudar para São Paulo, e senti que, aos poucos, esse espaço iria deixar de ser tão meu. Resolvi, então, fotografá-lo para eternizá-lo. Assim, aos 30 e poucos anos, encontrarei essas imagens e me lembrarei do quanto fui feliz ali, com meus pensamentos, minhas músicas e meus livros.

01 02 03 04 07 0810 21 13 15 1617 19 26 12

Sexta-feira passada (19.06.2015), fui para Belo Horizonte, deitei nessa cama com cobre-leito de florzinhas, e desabafei com a minha mãe sobre estar assustada — apesar de muito feliz — com as mudanças da vida. Eu vim morar em São Paulo, minha irmã vai se casar em setembro e formar outra família, e talvez fique impossível de algum dia sentarmos os quatro novamente no sofá para assistirmos a novela juntos. Assim que ela apagou as luzes e saiu do quarto, fui surpreendida pelos adesivos de estrelas fosforescentes, que eu mesma colei, transformando o meu teto em céu. E, nessa hora, eu soube que ficaria tudo bem.

Meu quarto mineiro é realmente o lugar mais aconchegante do mundo.

O dia em que conversei com Marina Abramović

marina

Era sábado, chovia muito e nós estávamos meio decepcionados. Eu e mais três amigos fomos ao Sesc Pompéia na esperança de ver uma exposição incrível da Marina Abramović, a sérvia rainha das performances, uma das artistas mais incrivelmente intensas dos últimos cinquenta anos, e nos deparamos com um copilado de artigos usados em exposições anteriores. Nada de novo. A mesa da exposição do MoMa, os artefatos utilizados nos 12 dias em que ela, em pessoa, ficou exposta na Sean Kelly Gallery, alguns vídeos de performances antigas com seu ex-companheiro Ulay, objetos criados por ela para se conectar consigo mesma e com as energias do universo…

Não que aquilo tudo não fosse interessante. Era. Estávamos mais próximos que nunca de Marina Abramović. Aqueles objetos transmitiam sua força interna, seu encantamento pelo mundo e sua maneira fascinante de se ser. Se quiséssemos, poderíamos até nos inscrever para passarmos duas horas praticando o Método Abramović e explorar os limites do nosso corpo e da nossa mente. No entanto, meu amigo Pedro, que é quase tão intenso quanto Marina, queria mais. Ele queria vivenciar algo inédito vindo da artista. E, assim, nos fez querer também.

Sedentos de mais Abramović, nos preparávamos para ir embora insatisfeitos, quando o Pedro decidiu que precisava tirar uma foto do prédio do Sesc Pompéia – um clássico arquitetônico de Lina Bo Bardi – para seu Instagram. À caminho do melhor ângulo para a foto, encontramos um galpão recheado de ação. Ali estavam acontecendo algumas performances de artistas brasileiros convidados e preparados por Marina – o que saberíamos se tivéssemos lido o livreto da exposição antes de decidir partir.

Entramos no galpão. Eu fui atraída pelo som de marteladas para uma sala cheia de tinta e caos, enquanto meus amigos foram parar dentro de uma sala de reunião. Poucos minutos depois, eu os encontrei. Estavam atônitos. Marina Abramović estava ali, ela mesma, de corpo presente, conversando com alguns performistas. Algum desentendimento estava rolando entre a sérvia e os brasileiros. Eles não se importavam dessa discussão ter platéia. Nos não conseguíamos compreender qual era o embate, mas percebemos quando Marina se cansou, deu sua palavra final e seguiu para outra sala. Fomos atrás.

Enquanto recuperávamos a respiração e decidíamos se íamos embora antes ou depois de pedir para tirar uma foto com ela, Marina se aproximou de nós e disse: “c’mon kids, let’s help me with these chairs”. Isso mesmo: Marina Abramović nos pediu ajuda. Ficamos em êxtase e, depois de de organizarmos as cadeiras para um performance que aconteceria naquela sala em breve, tomamos coragem. “Can we take picture with you?”, perguntou o Otávio, o mais cara de pau entre nós. “Let’s talk! It’s better than a silly picture”, respondeu a artista.

E foi assim que, incrédulos, começamos a conversar com uma das artistas mais respeitadas do mundo. Ela colocou seus braços ao nosso redor e formamos um minicírculo de conversa, enquanto centenas visitavam sua exposição em outro pavilhão sem fazer ideia de que ela, o motivo de estarem no Sesc Pompéia naquele sábado chuvoso, também estava por ali.

Por pouco mais de dez minutos, tivemos espontaneamente a atenção de Marina Abramović. Ela nos contou que adora pão de queijo – sempre que vem ao Brasil, compra alguns congelados para levar para casa -, mas sua comida favorita é a tailandesa. A forma como os sabores e aromas foram descritos por ela demonstraram que a artista realmente gosta de comer. O que me deixou ainda mais espantada por sua capacidade de se manter em jejum por vários dias em suas performances.

Disse que, apesar de trabalhar em várias das cidades mais incríveis do mundo, gosta mais da natureza. Garantiu que não ama mais o Ulay, pelo contrário, o odeia. “He left me and had children with another woman, how could I still love him?”, disse com a língua afiada, porém com certa leveza no olhar. Sobre a discussão na sala ao lado, também não teve reservas em falar. Os artistas não queriam assinar o contrato para permanecerem em performance por oito horas e, para ela, ou era assim, ou deveriam ir embora.

Foi uma conversa rápida, mas sem nenhuma pressa. Ela sorriu o tempo todo. Nos sorrimos ainda mais. “Ok, now let’s take that damn picture”, autorizou Marina, finalizando o bate-papo. E sorrimos juntos novamente, os cinco, para registrar aquele momento que, mesmo sem foto, jamais seria esquecido por nós quatro, jovens brasileiros encantados por arte, palavras e gentileza. Marina Abramović é ainda mais fascinante do que imaginávamos. Nosso sábado não poderia ter sido melhor.

IMG_3561

Perdi o medo do futuro

medo

Hoje, enquanto caminhava para o supermercado, fui criticando as calçadas da cidade de São Paulo e percebi, que apesar delas serem tortas, quebradas, terríveis e terem me feito passar uma semana de muletas após torcer o pé, eu estou perdidamente apaixonada por minha vida nesta cidade. Posso, inclusive, afirmar que tenho sido extremamente feliz.

Desse pensamento, parti para outro. Essa “minha vida neste cidade”, atualmente, se resume a procurar um apê fixo – está tudo incrivelmente caro ou insanamente pequeno – e um emprego, já que meu curso na Abril acabou e eu ainda não tenho um novo destino. Ou seja, o cenário atual da minha vida não parece nada promissor.

O fato é que, apesar dos pesares, pela primeira vez na vida, eu não estou com medo. Percebi isso, ainda ali, entre as calçadas desreguladas e mal cuidadas da minha nada barata atual vizinhança. Aquele sentimento desesperador de que tudo vai dar errado, não me acompanha mais. Finalmente, eu estou tranquila quanto ao meu futuro. Ufa!

Quando eu estava entrando na pré-adolescência, minha mãe me mudou de colégio e eu tive a certeza de que aquele era o fim da minha vida. Sai do meu conforto, do dia a dia com meus amigos de anos, do lugar onde eu conhecida todo mundo e tirava total em todas as provas, para a escola com mais playboy por metro quadrado de Belo Horizonte.

Na nova escola, eu acabei fazendo amigos, mesmo sem querer. Muitos amigos. No entanto, passei três anos com medo das provas de matemática e mais três tendo pesadelos com os exames de física. Foram seis anos sofrendo a cada semestre, a cada nota abaixo da média, a cada vez que meus pais precisavam assinar meus boletins.

Chegado o terceiro ano do Ensino Médio, veio o terrível vestibular. Foi uma época pavorosa. Engordei 8kg de tanta ansiedade. Ja que eu tinha me decido por um curso que não agradava o meu pai, o mínimo que eu precisava fazer era entrar na faculdade que ele queria, a UFMG. A minha vida podia não ter acabado quando me mudaram de escola, mas, dessa vez, ela chegaria ao fim caso meu nome não aparecesse entre os selecionados, de 2010, da Federal.

Eu imaginava o quanto meu pai ficaria decepcionado caso eu não conseguisse. Não ia pagar uma faculdade particular, não ia me dar mais um tostão que não fosse para o cursinho. Adeus cinema, adeus amigos, adeus reparos no computador. E, mesmo se ele pagasse, como eu poderia aceitar qualquer dinheiro vindo dele depois de desaponta-lo tanto? No fim, deu tudo certo, e nós nunca vamos saber se esse meu drama tinha fundamento.

Como as aulas de jornalismo só começavam em agosto, terminada a escola, passei um semestre tentando tirar carteira de motorista. Foram quatro tentativas. Mandei bem na primeira vez, e não passei. Nas outras três, deixei o medo me dominar e dirigi chacoalhando mais que o bumbum da Carla Perez durante os anos 1990. Eu não sabia dirigir, eu estava jogando fora o dinheiro do meu pai, eu era um desastre. Eu passei.

À essa altura, eu já tinha entrado na faculdade. Nesse tempo, tive medo de não conseguir ir de intercâmbio, medo de não decidir qual área do jornalismo eu queria seguir, medo de me apaixonar e jamais conseguir curar meu coração depois de mais uma decepção, medo de nunca mais me apaixonar, medo de não conseguir estágio, medo de me afastar dos meus amigos da escola até parar de ter notícias deles, medo de pedir dinheiro para o meu pai. Medo de tudo, muito medo. Sobrevivi. Quase tudo deu certo, e o que não deu, deu certo também.

No fim da faculdade, tive medo de não conseguir emprego. Conseguido o emprego, tive medo de não entrar no Curso Abril. Terminado o Curso Abril, já não tenho mais medo de nada. A vida jamais esteve tão boa. O futuro nunca me pareceu tão incrível, mesmo ainda não tendo forma. Estou mais segura do que nunca. Segura das minhas decisões, segura de que vou conseguir tudo o que eu quero. E, se não for assim, eu descubro outro querer. Eu encontro outros caminhos. Só sei que, de São Paulo, ninguém me tira. Só se for para ir mais longe.