Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

vizinha

“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.

Crônica é para fazer carinho, não para alimentar o ódio

cronica

Na adolescência, eu sempre lia a última página da revista primeiro, porque é lá que costumavam morar as crônicas. Os melhores livros que li na escola eram copilados de histórias curtinhas, escritas por alguns dos melhores jornalistas-escritores que o Brasil já teve, sobre a vida deles. Os sentimentos deles. As pessoas que convivem com eles. Sobre eles.

Eu, sentada na última fileira do canto esquerdo da sala da sétima série, ficava imaginando o tanto que ia ser legal quando eu tivesse minha própria coluna para escrever crônicas sobre a minha própria vida. E que legal ia ser as pessoas lerem meus textos curtos e pensarem “nossa, isso acontece mesmo!”, “puts, igual a mim!” ou, quem sabe até, chorarem em empatia.

No fim da adolescência, fundei este blog. Os melhores textos que escrevi foram feitos após términos de relacionamento – bendito é o coração partido, rei da inspiração, que me faz usar com facilidade um tantão de letrinhas para libertar de dentro todo o sentimento que me sufoca a cada história de amor estraçalhada. Outros que se destacaram foram sobre a morte da minha cadela, o meu medo de ser estuprada e meus ataques de carência. Todos textos sobre mim.

Ah, e imaginem só a minha alegria toda vez que um inbox chegava dizendo “esse seu texto aqui parece até que fui eu que escrevi”! Em certas ocasiões, fui abordada na Savassi e na faculdade. “Chorei muito seu texto sobre a cachorrinha” (!). “Tive um ex igual ao seu” (!!). “Você me entende” (!!!). A satisfação de descobrir que traduziu involuntariamente o sentimento de alguém é ainda mais fascinante do que a sensação de terem inconscientemente traduzido os seus sentimentos.

Já faz tempo, no entanto, que ando incomodada com minha falta de dedicação a mim mesma. Passo o dia todo escrevendo – afinal, sou jornalista –, mas os relatos pessoais têm sido cada vez mais raros (e me fazem enorme falta). Até que, na sexta passada, quando li as últimas páginas de “Trinta e Poucos”, do Antônio Prata, tomei uma decisão: toda segunda-feira vou escrever aqui no blog. No mais tardar, terça ou quarta. Mas vou escrever. Afinal, não tenho coluna em publicação nenhuma – como sonhava acordada na adolescência – mas tenho este blog. E um blog, para existir de fato, precisa ser atualizado. Mais que isso: eu, para existir de fato, preciso escrever minhas crônicas e contos.

Enfim, chegou o grande dia. A primeira segunda-feira de muitas frutíferas que virão. E, neste dia de grande importância para mim (e para o Cunha, que vai ser julgado, e para o Paulo Zulu, que postou um nude frontal no Instagram), o assunto mais falado foi justamente uma crônica. Em sua coluna na Folha, Gregório Duvivier fez uma homenagem ao seu namoro com Clarice Falcão. Uma homenagem com ares de gratidão e uma pitadinha de marketing, já que eles estão lançando um filme juntos (e o título do filme estava no título da coluna).

Eu a li logo pela manhã. Achei bonita. Leve. Dei uma choradinha. Tão bonito quem sabe valorizar o amor vivido, pensei. Tão triste que o amor normalmente se transforme em ódio, reflito toda vez que algum amigo termina o namoro ou algum parente se divorcia. Sequei as lágrimas. Compartilhei o link da coluna no Facebook e fui cuidar do meu ganha pão. Assunto encerrado.

Engano meu. A crônica virou polêmica. Uma crônica açucarada, com grande dose dos clichês gregorianos e falconianos – que eu, fã dos trabalhos da família dela e admiradora das criações dele, claro, adorei –, virou fogo cruzado. “É marketing, seus troxas!”. “É um texto abusivo, de um cara abusivo!”. “Esquerdomacho de merda!”. Centenas de acusações foram feitas ao autor, nenhuma prova das acusações me foi entregue quando solicitei – comentei em muito tópico perguntando onde leram aquilo (afinal, não gosto de gostar de gente babaca), ninguém me retornou com a fonte –, defenderam incessantemente Clarice sem que ela precisasse (ou quisesse) ser defendida.

Virou uma guerra, virou ódio.
Virou desgaste.

Era uma crônica.

Uma crônica sobre afeto. Sobre gratidão. Com uma pitadinha de marketing, é verdade. Mas uma crônica. E o que é, afinal, uma crônica, se não o gênero textual mais doce já criado? O que é uma crônica, se não um diário escrito com gracejos e certa dose de ironia para ser aberto ao público?

Crônica combina com café coado e pão de queijo quentinho. Crônica não combina com fúria. Nem com suposições hostis.

Crônica tem a ver com empatia.

(Não devia ser tão difícil de entender)

O frio me deixa desesperadamente solitária

solidao frio

Eu ando muito melancólica. Com certeza, é por causa do frio. Tem potencializador mais eficiente que esse quando o assunto é nos sentirmos sozinhos? Perdi as contas de quantas panelas de brigadeiro eu preparei (e comi) no último mês, ou de quantas vezes eu chorei porque meus amigos ou familiares não me deram a atenção que eu precisava em determinado momento. Vocês não tem noção da quantidade de briga boba e unilateral em que eu me meti nas últimas semanas por estar melancólica – e ninguém me dar atenção por, obviamente, não ter nada a ver com isso.

Nesse furacão emocional, voltei a recapitular meu último relacionamento como se ele tivesse acabado ontem. Acho que, com isso, eu queria encontrar qualquer comprovação de que existe a chance de, um dia, eu conhecer alguém que tenha entre as suas prioridades me fazer feliz. Alguém que realmente não se importe com o fato de o frio me deixar tão dramática. Uma pessoa que faça as panelas de brigadeiros serem menos urgentes.

Dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes eu me apaixonei. Quem me conhece sabe que, toda vez que esse milagre acontece, meu coração jorra sangue antes de se abrir. Por medo. O coitado já tomou muita porrada e, sabiamente, tem receio de tomar mais. Então, eu nunca soube se as coisas não deram certo porque eu passei tempo demais estancando o sangue antes de aceitar a paixão ou se porque eu realmente não tenho a menor vocação para ser amada.

Para alguém como eu, que costuma não ter a menor paciência para segundos encontros e adora tomar suas próprias decisões sem ninguém meter o dedo, é difícil assumir a falta que faz não ter tido um relacionamento que durou mais de quatro meses. Quando eu era adolescente, eu tinha mais coragem de assumir minha carência. Colocava a solidão na boca de personagens e pronto, tirava o desespero das minhas costas. Agora não, eu guardo para mim. Enrolo-me na coberta e fico torcendo para a angústia passar.

Além dessa covardia, eu acho bonito falar que a gente não precisa de ninguém para ser feliz, que isso de casal é uma coisa que a sociedade nos impõe e da qual precisamos nos livrar. Muito fácil encher a boca para defender essa crença, enquanto tenho uma prateleira lotada de livros de amor e vejo todos os filmes de romance assim que estreiam no cinema.

Por isso,  hoje escrevo aqui para dar um recado para mim mesma. Não tem nada de errado em querer amar e ser amada por mais de quatro meses, no fundo, todo mundo procura por isso. E, definitivamente, não tem nada de errado em não se interessar pela maioria dos caras que você fica. Eles realmente não tem nada a ver com você, a não ser o gosto por cerveja. Desencana. Enquanto o calor não vem, o importante é continuar se divertindo a cada colherada de brigadeiro e se segurar para não desaguar sua solidão em mais nenhuma pessoa querida. Essa melancolia tem nome: frio. Segura que já passa.

O meu 2016 começa agora

2016

A vida tem dessas. Depois de ondas enormes de felicidade, é preciso lidar com dolorosos períodos de descontentamento. E foi isso que me aconteceu nesse início de ano.

2015 foi um ano completamente transformador e sem nenhum traço de tédio. Eu me mudei de cidade, fiz novos amigos incríveis, enfrentei dois engrandecedores desafios profissionais, participei de eventos espetaculares e fui muito, muito feliz. Tão feliz que ignorei com facilidade as diversas pedras que iam surgindo no meu caminho. Até que a conta chegou.

A intensidade foi tanta que 2015 não terminou no dia 31 de dezembro. Durante os três primeiros meses do que vocês já chamavam de 2016, eu me encontrei em um enorme abismo de finalizações. Basicamente, fui engolida por minha própria ansiedade enquanto experienciava o termino de dois elementos de grande importância na minha vida.

Nesse tempo, precisei suportar os derradeiros meses do projeto ao qual entreguei todo o meu sangue ao longo do ano que se passou, enquanto tentava segurar minhas apreensões em relação ao meu futuro como jornalista. Ao mesmo tempo, precisei lidar com a mente complicado do meu atual ex, que não tinha coragem de me deixar partir, mas também não queria mais ficar ao meu lado.

Por mais que eu pareça forte e já tenha sobrevivido a muitos desastres emocionais, dessa vez, eu fiquei sem forças. Perdi a fome pela primeira vez na vida em janeiro, chorei durante todas as noites de fevereiro e, ao longo de março, tentei controlar as lágrimas que insistiam em saltar dos meus olhos durante o horário de trabalho.

Eu me perdi de mim. Não vou negar que dei algumas risadas sinceras nos últimos três meses, mas a enorme nuvem de desesperança que me rodeava ofuscava as boas lembranças assim que os acontecimentos empolgantes chegavam ao fim.

A minha sorte é que, na vida, longos períodos de sofrimento também costumam ser automaticamente substituídos por ondas de felicidade em abundância. E parece que esse novo mar, agora, está começando a molhar os meus pés. Enfim os resquícios de 2015 ficaram para trás. Finalmente o meu 2016 vai começar.

Pode vir, ano novo! Estou mais forte do que nunca.

Eu só queria chegar em casa e dormir, mas esbarrei com você no meio do caminho

Depois de uma segunda-feira pesada, daquelas que o tempo passa tão rápido quanto discursos de colação de grau e as obrigações são tão divertidas quanto arrancar o siso, tudo o que eu queria era me teletransportar para casa. Estalar os dedos na redação e – plim! – surgir deitada na minha cama. Contudo, como mera mortal que sou, precisei pegar o metrô e suas baldeações para chegar ao meu apartamento.

Foi então que, como se o dia já não tivesse sido desgastante o suficiente, no meio do caminho, esbarrei com você. Ou melhor, com uma lembrança sua. Te vi ali, na plataforma da Consolação, com a blusa social toda amarrotada, me esperando com a maior cara de sono do mundo. Mesmo visivelmente cansado, seu rosto abriu um sorriso enorme ao me ver. Essa cena poderia salvar o meu dia, se não fosse apenas uma recordação da última vez que você sorriu com sinceridade pra mim. Quatro meses atrás.

Logo o metrô chegou e eu, enfim, voltei para casa sem mais fortes emoções. A noite correu bem, até meu corpo exausto finalmente cair na cama e minha mente resolver, outra vez, te visitar no passado. Naquele dia, o meu plano original era ir a uma festa com meus amigos. Eu nem estava com tanta vontade, queria mesmo era passar a última noite em sua companhia antes de ficarmos duas semanas separados por causa das festas de fim de ano. Porém, você sabe, não sou do tipo que desmarca compromissos.

Então, imagine a minha alegria quando, em comum acordo, eu e meus amigos decidimos cancelar a balada. A primeira coisa que fiz foi te mandar uma mensagem pedindo para me encontrar. Você nem hesitou. Saiu na mesma hora de onde estava e foi me ver. E essa foi a última vez que você me encontrou de imediato, sem se questionar se realmente deveria ir.

Se eu tivesse consciência que aquela seria uma noite de últimas vezes tão importante, com certeza teria te aproveitado melhor. Ao invés disso, passamos a noite discutindo por bobagem, dormimos emburrados um com o outro e, assim, destruímos de vez qualquer possibilidade de sermos felizes juntos. Nós nem percebemos isso, mas foi naquele dia que tudo mudou.

Eu viajei, você viajou. O tempo afastados só piorou tudo. Depois disso, você nunca mais aceitou os meus convites com prontidão. Eu, desesperada, tentei tapar os buracos que cavamos tão profundamente dentro de nós com as nossas inseguranças durante aquelas duas semanas separados. Não funcionou. Eles já estavam entranhados demais e, com o passar das semanas, só se multiplicaram.

Lembrar de tudo isso não faz sentido nenhum agora que, depois de doloridas idas e vindas, o “eu e você” enfim acabou. É bem provável a gente nunca mais se encontre e, toda vez que penso nisso, eu choro um pouquinho. Sua ausência ainda me machuca. Já você, imagino, conseguiu seguir em frente. Nunca mais me ligou de madrugada, nem respondeu às últimas mensagens que mandei.

Eu venho tentando fazer o mesmo, virar a página. Alguns dias são melhores que outros, confesso. E sei que daqui a quatro anos esse sofrimento provavelmente não fará o menor sentido. No entanto, em uma segunda-feira desestimulante como esta, tudo o que eu queria era me encontrar com você na plataforma da Consolação e te dar um abraço tão intenso e demorado quanto as nossas ansiedades. Daquele jeito que fizemos tantas vezes em dias de semana atribulados.

Você não faz ideia de quantos dias ruins foram salvos por noites alegres em sua companhia. No momento, porém, só depende de mim me fazer feliz. Sempre foi assim, afinal. Seu cabelo comprido e suas camisas sociais fazem tanta falta quanto eu imaginava, mas vai passar, eu sei. Toda vez passa. Agora é melhor eu dormir que já são quase três da madruga e essas reflexões não vão me levar a nada. A boa notícia é: amanhã é um novo dia. Melhor que hoje, eu espero. Um pouco mais sonolento, talvez. Definitivamente, sem você.

#ViajoSozinha

Aos 18 anos, viajei para Buenos Aires com 3 amigas. Aos 19, éramos 12 mulheres conhecendo Punta del Este. Aos 20, visitei algumas amigas na Europa sozinha, enquanto morava em Londres sozinha, dividindo apartamentos com pessoas desconhecidas. Minha última viagem internacional foi um retorno a Baires. Fiquei hospedada no mesmo albergue da primeira vez, sozinha. ‪#‎viajosozinha‬ sim, moro em SP com duas amigas, sempre andei pra cima e pra baixo desacompanhada. Isso jamais deveria ser justificativa para assassinato/estupro, mas, infelizmente, se eu fosse violentada, a sociedade colocaria culpa na minha independência. Porém, minha liberdade ninguém me tira, nem mesmo o medo. Que as mulheres tenham cada vez mais coragem de ir e vir, e que os homens aprendam que não somos vidas descartáveis. A luta continua, todos os dias. Viva o dia 8 de março, viva as mulheres!

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Em memória das argentinas Maria José Coni, 22 anos, e Marina Menegazzo, 21 anos, assassinadas no Equador enquanto faziam um mochilão pela América Latina. Vocês não serão esquecidas. 

Maria José Coni, de 22 anos e Marina Menegazzo de 21

Na dúvida, ame. Apenas não se deixe afogar.

na duvida ame

Quando eu te vi pela primeira vez, eu tive certeza que estava diante do homem mais bonito do mundo. Certeza absoluta. Por isso, tive medo quando você se mostrou tão interessado em sair comigo pela primeira vez. Um homem tão bonito assim não poderia estar realmente atraído por mim. Então eu fugi.

No entanto, o destino sabe muito bem onde nos reencontrar quando tentamos desviar dele e, repentinamente, você reapareceu. Meses depois. Mais lindo do que nunca. E, dessa vez, eu resolvi dar uma chance para nós dois. Um encontro, afinal, que mal faz?

Você era ainda melhor do que eu pensava. Sua empolgação em defender as suas ideias, o seu olhar carinhoso ao me observar, seu modo de se vestir tão diferente do meu. E logo ali, na primeira cerveja, eu me apaixonei. Intensamente, bizarramente, inesperadamente.

Fui dormir torcendo para que a gente se visse outra vez. Logo. O mais rápido possível. Assim, imagine a minha felicidade quando, no dia seguinte, você disse que, por você, a gente já se via naquela noite. Um sorriso imenso se tatuou no meu rosto. Porém, preferi esperar mais um dia. Ir com calma.

Uma noite depois, já estávamos juntos outra vez. O que se passava dentro de mim era tão impetuoso, tão assustadoramente real que, a cada segundo ao seu lado, eu sentia mais medo por carregar tão forte sentimento no meu peito. Das outras vezes em que havia me sentido assim, meu coração se estraçalhou tão seriamente que nunca me recuperei cem por cento.

Não demorou muito para você dizer que me amava. Levado pelos vários copos de cerveja, pensei. A minha vontade era de te beijar até acabar o ar dos meus pulmões e colar a minha pele na sua de uma forma que a gente não se soltasse nunca mais. No entanto, meus traumas me fizeram responder que era melhor a gente ir mais devagar. E hoje sei que, naquele dia, eu te matei um pouquinho por dentro.

O tempo foi passando e eu fui tendo cada vez mais certeza: eu não poderia mais viver sem você. Te imaginei ao meu lado em todos os momentos futuros da minha vida, me imaginei ao seu lado em todos os desafios que você precisasse enfrentar. Ia ser eu e você para sempre. Eu só não tinha coragem de demonstrar isso. Sabia que, uma vez aberto o meu coração, não tinha volta e você poderia fazer o que quisesse com a minha alma. Era melhor me certificar que, pela primeira vez na vida, eu pisava em terra firme.

Com as comemorações de fim de ano, precisamos nos afastar por um tempo. Ambos já tínhamos feito planos para aquela época antes de nos conhecermos. Eu fui para a minha cidade, você foi para a praia. O que era para ter sido apenas duas semanas de saudade, transformou o nosso amor em desespero. Para os dois. A minha insegurança, à essa altura, havia te contagiado e você perdeu as forças que, com muito esforço, tentava manter para ter confiança de que tudo daria certo. Ficamos ambos vulneráveis. Fracos.

Era paixão demais, fazendo os receios e a distância transformaram os nossos diálogos em enormes falhas comunicativas. Eu não te entendia e você interpretava tudo o que eu dizia de outra maneira. Cansada de sofrer e com medo de os nossos bate bocas nunca terminarem, resolvi dar um fim a nossa história. “Você tem certeza isso?”, você me perguntava sem parar. Não. Nenhuma. Mas respondi que sim.

Os dias seguintes se passaram com a mesma velocidade com que uma missa se arrasta. Você mandando mensagens: saudades. Eu tentando ao máximo não me sentir afetada pelas suas palavras: vai passar. Então descobri que você já estava com outra pessoa. Na praia, as paixões se incendeiam rápido, não é mesmo? Ela era uma menina tão cheia de inocência e vulgaridade que se meteu em lugares do seu Facebook que me pertenciam. Fiquei possessa.

Fui ao perfil dela e encontrei, sem nenhuma dificuldade, as suas palavras. Te amo, você dizia. Te amo. Meu coração explodiu. Enquanto meu sangue se espalhava sobre todo o meu corpo, minha cabeça dizia “Eu sempre soube que isso ia acontecer. Não devia ter caído nessa. Como posso ter sido tão estúpida?” repetidas vezes, sem parar. Me culpei intensamente por um problema seu, não meu. Uma fraqueza sua.

No entanto, o que você não sabia era seu poder de me deixar assim. Eu nunca deixei claro o quanto eu te amava. Sempre tentei te manter o mais longe possível dos meus sentimentos. Por mais carinhosa que eu fosse, você não conseguia perceber o amor que eu sentia. Foi necessário ver meu coração destroçado por sua causa para compreender toda a imensidão que havia dentro de mim.

Foi preciso me destruir por dentro para você perceber o meu amor. Por isso te perdoei. Demorou alguns dias, até eu limpar todo o sangue que havia sobre mim. Contudo, quando você se mostrou tremendamente arrependido e simultaneamente machucado com aquela situação, decidi relevar. Com isso tudo, percebi que o medo não nos protege de nada, só da felicidade, e me empenhei em retomar a nossa história. Catei os pedaços do meu coração e te entreguei todos eles para que pudéssemos ser felizes.

Não aconteceu. Nós nos machucamos de um jeito tão visceral que os meses seguintes só serviram para nos destruir ainda mais. Dessa vez, eu tentei ser mais paciente. Era sua vez de estar inseguro. Suportei seu desprezo, aceitei todos os sinais de afeto. Me entreguei completamente, de um jeito que não me entregava assim desde os meus 14 anos, quando me apaixonei pela primeira vez.

Defini: eu era sua e você era meu. Nada ia nos separar. Eu aguentaria todos os seus maus momentos até que você voltasse a ser o cara que não tinha medo de me amar. Tentei ser forte. Perdi a fome. Fui dormir todas as noites chorando. E não me importei. O fato de você me amar e de eu sentir o mesmo com a mesma intensidade bastava.

Nós, muito em breve, voltaríamos a ser feliz. Eu tinha certeza disso. Seria uma felicidade tão grandiosa que o céu nunca mais ficaria escuro durante o dia e as noites seriam cada vez mais estreladas. Uma felicidade tão imensa que qualquer um que a presenciasse seria feliz para sempre também. Uma felicidade nossa, só nossa, que mudaria o mundo.

No entanto, assim como eu aprecio a alegria, você é encantado pela melancolia. Não consegui vencer o seu amargor pela vida e percebi que continuar nessa batalha não te faria mais contente, apenas me deixaria mais infeliz. Isso seria uma derrota para nós dois. Foi, então, que decidi ir embora. Por mais que eu quisesse ficar. Para sempre. A vida toda. Precisei partir. De uma vez por todas. Para o bem de nós dois.

Agora estou aqui completamente sem você. O meu coração nunca tinha ficado tão pequeno. É a primeira vez que amo com cem por cento de reciprocidade, porém de uma forma tão destrutiva. Nós ainda nos pertencemos, eu tenho certeza disso. Só não vamos mais ficar junto. E o motivo não poderia ser mais surreal: somos extremamente apaixonados um pelo o outro. Um sentimento tão absurdo que não soubemos como cuidar dele sem nos afogar.

Preferi subir em meu barco e partir antes que não houvesse mais nenhum traço de contentamento em meu corpo. Espero que agora seja mais fácil para você subir em seu barco também, pois única coisa que me faria mais feliz do que viver ao seu lado, seria você finalmente encontrar algum tipo de felicidade. Boa sorte.

Saudades. Te amo.

* imagem do filme “Mr. Nobody”. 

2015: um segundo por dia

Mudar para São Paulo. Começar a trabalhar na empresa que sempre sonhei. Dividir um apartamento ao lado do metrô com duas amigas. Casamento da minha irmã. Conhecer pessoas incríveis. Ter experiências inesquecíveis. 2015 foi extremamente sensacional. E aqui vai um vídeo de agradecimento a esse ano que foi um marco fundamental na minha vida:

Não preciso que você esteja em casa para que eu me sinta novamente ao seu lado

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Eram cinco da manhã, eu não fazia a menor ideia do que estava fazendo, mas fiz. Entrei no seu apartamento como quem entra na casa dos pais que moram em outra cidade. Em momento nenhum me senti uma intrusa. Afinal, mesmo oito meses após o fim do nosso namoro, eu ainda tinha a chave. Bastou destrancar as fechaduras e, voilá, seu universo estava de volta à minha frente.

A parede da sala continuava verde esmeralda do jeitinho que a gente pintou. Seu sofá se manteve com o mesmo tecido desgastado de sempre. Suas revistas espalhadas pela mesa de centro, aquele poster minimalista do Homem Aranha pregado perto da cozinha, seus sapatos usados amontoados no canto esquerdo à porta de entrada para não contaminar o resto do apartamento com a sujeira da rua. Tudo continuava igual.

Você não estava em casa, mas isso não me pareceu ser um problema. Tomei um copo d’água, escovei os dentes com a sua escova e me joguei na sua cama. Na cama que quase foi nossa, que praticamente tem a marca do meu corpo no lado direito do colchão por termos passado tanto tempo deitados nela. Adormeci.

Na manhã seguinte, acordei com um sorriso no rosto. Alegria de quem acorda com cheiro de café espalhado pela casa, apesar de não ter aroma algum realmente vindo da cozinha. Só aquele cheiro de sempre pairando pelo ar, aquele cheiro todo seu. Bálsamo. O meu cheiro favorito no mundo todo durante seis anos. Quer dizer, talvez ele ainda seja meu predileto até hoje. Nunca inspirei nada tão alegre.

Olhei ao meu redor, observei cada canto do seu quarto e fiquei pensando sobre nós. Não sei como passei tanto tempo sem contato com sua vida. Notícias suas sempre chegam, é claro. Acho que minha lista de amizades não se renovou muito desde o nosso término. Parece que a sua também não. Alguém sempre comenta que esteve com você “outro dia”. Só eu nunca mais vi você.

Por quê? Não entendo o motivo de estarmos tão afastados. Nós éramos deliciosamente compatíveis. Nosso fim não foi dramático. Você decidiu que precisava focar no fim da sua dissertação de mestrado. Eu decidi que não tinha mais paciência para assistir Netflix quase todas as noites do final de semana. Sentia falta do barulho das pessoas conversando no bar, de dançar até minhas pernas bambearem, de observar o dia chegando enquanto a cidade se iluminava.

Você precisava ficar mais quieto. Isso eu compreendi. Eu só não quis ficar te assistindo concentrado no computador, quando meu corpo e minha mente estavam cheios de energias ansiosas para serem dispersas pelo mundo. Eu precisava vivenciar esse meu momento. Você precisava se focar no seu. Decidimos que o jeito mais tranquilo disso não nos desgastar era pararmos de nos ver. E paramos.

Sua dissertação foi um sucesso, ouvi dizer. Parabéns. Muitos parabéns! Não mandei recado, presente ou mensagem, porque, assim que fiquei sabendo, minha vontade foi de vir correndo até seu apartamento. Quis te encher de beijos, dizer “eu sabia!”, chorar de felicidade, te abraçar tão apertado, mas tão apertado, que eu nunca mais ia querer soltar. Então não vim.

Guardei minhas vontades de um jeito que não fui capaz de armazenar os desejos que senti 5 meses antes, quando te deixei ali, parado em frente à porta aberta desse apartamento, me olhando como se nunca mais fosse me ver, mas com um semblante de quem preferia me contemplar sempre quando quisesse. Quase o tempo todo, como sempre foi. Saí, não olhei para trás. Porém, essa imagem nunca saiu da minha cabeça.

Enfim, cá estou, às 14 horas e quarenta e três minutos, do domingo de hoje, escrevendo esta carta de dentro da sua cozinha enquanto tomo uma caneca de café com um pouquinho de leite. (A propósito, estou usando aquela azul com desenhos de nuvens que sempre me encantou por sua imensidão)

Não sei onde você está, com quem passou a noite e quais atividades você normalmente tem feito aos domingos à tarde. Isso não importa. O que eu sei é que a porta se manteve aberta para mim. Você não trocou a fechadura e seu apartamento continua tendo cara de nosso — o meu também não perdeu muito esse aspecto. Talvez as coisas entre nós nunca mais sejam como foram, talvez elas nunca tenham deixado de ser.

Eu continuo a mesma menina que gosta de ler com a perna enroscada na sua, aprecia flores encontradas na calçada e sente saudades de morar em Madrid. Pelo que comentam sem prestar muita atenção na minha presença, você não abandonou o hábito de preparar, todas as sextas-feiras, café da manhã para o porteiro, e continua adorando comprar CDs dos seus artistas favoritos, mesmo não tendo aparelho para reproduzi-los.

Até onde eu sei, são grandes as chances de que a gente continue sendo inebriante compatíveis. Seria perfeito se você me desse a chance de conferir se isso é verdade. A chave do meu apartamento você ainda tem, notei que continua dependurada no mesmo lugar na sala, então é só aparecer por lá quando der na telha. Caso sinta vontade.

Estarei involuntariamente te esperando.

Estou perdendo o medo de avião

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Quando eu era criança, achava a maior graça em ver meu pai, de olhos fechados, segurando firme no braço da poltrona do avião sempre que passávamos por uma turbulência. Ele tem pavor de viajar de avião. Sempre teve. Eu não entendia o motivo de tanto desespero, afinal, toda vez que voávamos nas férias, chegávamos sãos e salvos ao nosso destino sem nenhum problema.

Aí eu cresci. Veio o 11 de setembro, o acidente da TAM em 2007, e algumas outras histórias de desastres envolvendo aviões. Percebi que meu pai tinha razão em ter medo. No fim das contas, essas naves não eram tão seguras quanto eu pensava. Mesmo com os baixos índices de mortes por desastre aéreo, elas não eram nulas – e eu não queria ter esse azar. Passei a também ter medo de voar.

Nos últimos anos, quando começava uma turbulência, eu me segurava nos braços da poltrona tal qual meu pai. Um pouco mais corajosa que ele, ficava de olhos abertos. Ver as outras pessoas tranquilas, fosse cochilando, lendo um livro, ou dando risada com o passageiro ao lado, me deixava um poucos mais desesperada. Será que elas não se preocupavam com a forte iminência da morte?

A pior época foi quando me preparava para meu intercâmbio em Londres. Eu ia morrer à caminho de realizar meu sonho. Certeza. Era felicidade demais para dar certo. No mesmo oceano em que caiu o avião da Air France em 2009, o meu também se afogaria. Cheguei a chorar diversas vezes prevendo erroneamente esse acontecimento. Com lágrimas escorrendo pelos meus olhos, contei isso para uma amiga. Ela, claro, disse que eu estava louca. Ia tudo dar certo. E deu.

Nunca mais me desesperei antes da hora, mas só conseguia ficar tranquila depois que a decolagem estava completa e os avisos de atar os cintos se apagavam – até a turbulência interromper o meu sossego. Para evitar todo esse drama, tentava dormir assim que entrava na aeronave. Algumas vezes consegui, outras não. Sobrevivi a todas.

O fato é: só este ano – por estar morando em São Paulo – já viajei de avião umas 10 vezes. Notei que tenho estado mais tranquila nessas ocasiões. Já me maquiei para uma festa de 15 anos enquanto voava e, quando a nave tremeu, o que me incomodava era precisar interromper o meu trabalho para não me borrar, por exemplo. Continuo dormindo enquanto viajo, mas isso se deve mais ao horário dos voos do que ao meu medo. Este ano, voltei a me sentir em casa dentro de um avião.

Só não digo que me livrei por completo desse medo – meio herdado do meu pai, meio gerado pelos noticiários –, porque uma coisa não mudou. O primeiro pensamento que me vem a cabeça, sempre quando a aeronave pousa, continua sendo: estou viva. E que seja sempre assim.