Por mais Anittas e menos Mallus Magalhães no mundo

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Em dezembro de 2014, a cantora Pitty deu uma aula a Anitta sobre empoderamento feminino no programa Altas Horas. Anitta havia dito umas besteiras sobre “mulheres agindo como homens” que eu, como fã da funkeira já nessa época, fiquei meio decepcionada. No entanto, notei que ela apenas reproduzia um discurso ao qual foi submetida diversas vezes e do qual ela mesma era vítima. Continuei acompanhando o seu trabalho e dançando as suas músicas com a mesma empolgação – ainda bem.

Hoje, menos de 3 anos depois, Anitta é um dos maiores símbolos brasileiros de mulher independente e poderosa. Atualmente, ela busca fortemente influenciar outras mulheres a serem donas deus corpos e de suas atitudes. Tenho para mim que, depois desse episódio, ela – empresária de si mesma – foi estudar sobre feminismo, ouvir outras pessoas e, assim, remodelou seus pensamentos. Anitta aprendeu com as críticas e se tornou uma mulher ainda mais completa e inspiradora.

Ela tem a mesma idade de Mallu Magalhães, 24 anos. Essa, por sua vez, demonstra que jamais chegará perto de qualquer evolução. Acompanho e admiro o seu trabalho desde quando ela era zombada por não saber dar entrevistas quando surgiu aos 16 anos de idade. Mais de uma vez, já me disseram que me pareço com ela. Eu costumava, de certa forma, a ficar feliz quando isso acontecia. Assim como Mallu, sou menina branca (eu de classe média, ela bem rica) e me identificava com suas músicas. Muitos das minhas manhãs foram embaladas por “Cena” e “Olha Só Moreno” e o show da Banda do Mar é um dos mais encantadores que já fui na minha vida. Uma pena que agora eu precise deixar isso tudo para trás.

A Mallu não é ídolo que se acompanhe. Quando uma enxurrada de críticas caíram sobre ela devido o racismo presente no clipe “Você Não Presta”, confesso ter tido certa esperança. Ao ver o vídeo pela primeira vez, eu gostei. Até estranhei a presença de tantos corpos negros desnudos em quanto ela, branquinha, estava coberta, mas nada que me impedisse de comentar um coração quando minha amiga publicou o link do Youtube. Achei a música deliciosamente dançante e compreendi que Mallu não tem metade do gingado daqueles dançarinos maravilhosos para se jogar da mesma maneira que eles na dança.

No entanto, eu, menina branca de classe média educada em colégio de elite, li cada uma das críticas que vi espalhadas pelo Facebook – e até me arrisquei a procurar algumas extras no Google. Por ter consciência dos meus privilégios e de como eles influenciam na forma com a qual eu enxergo o mundo, tento diariamente me tornar uma pessoa mais empática com realidade dos outros. Busco reconhecer a luta de cada minoria com a mesma força que luto para que os preconceitos e dificuldades enfrentados pelas mulheres sejam minados da Terra. Ao ler o máximo que pude sobre o assunto, aprendi bastante. Porém, claramente a Mallu não.

A cantora pediu desculpas, manteve o clipe no ar e o mundo continuou rodando. Alguns aceitaram as suas palavras, outros acharam que ela podia ter feito melhor e eu esperei que a tchubaruba aproveitasse a oportunidade para evoluir. Mera ilusão. Na manhã desta sexta-feira (23 de junho), ela foi ao programa Encontro, onde mais uma vez defendeu a produção artística do clipe. “Não foi minha intenção”, disse mais uma vez para se livrar das acusações de racismo. Mallu chegou, inclusive, a dizer que entendia a dor de quem se sentiu ferido. “São argumentos que nunca passaram pela minha cabeça e, por isso, eu fico triste”, lamentou. Tudo cena.

Alguns minutos depois, ela se levantou. Era hora de apresentar ao vivo a música “Você Não Presta”. Antes de soltar a voz, soltou a frase mais imperdoável da semana: ”Essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”. Sim, depois de tudo que foi escrito e falado direcionado a ela no último mês, Mallu Magalhães optou por aproveitar sua exposição em um dos programas de maior audiência da TV brasileira para denunciar o “racismo reverso” sofrido pelos brancos na música. A quem possa ter dúvida: racismo reverso não existe. Nem na música, nem em lugar nenhum.

Espero sinceramente que a Mallu tenha salvação. Eu, porém, não estou mais disposta a acompanhá-la – ao contrário do tenho feito ao longo de toda a sua carreira. Caso me digam mais uma vez que me pareço com ela, vou abaixar a cabeça e, quem sabe, até pedir desculpas. O mundo não precisa de outras Mallus Magalhães, ele precisa é de mais Anittas, Pittys e Elzas Soares.

“13 reasons why” é pesada, mas necessária

*contém spoilers

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Eu não sou especialista. Não estudei psicologia, nem tenho a menor noção de psiquiatria. Então o texto que se segue são apenas impressões de uma garota que já sentiu sentimentos parecidos com os de Hannah Baker, mas, definitivamente, nunca pensou em se matar.

Minha primeira reação ao começar a assistir 13 reasons why foi “cara, que menina mandona”. Peguei bode da Hannah dando ordens e culpando seus colegas por ter se matado. Porém, ainda no primeiro episódio, o quadro mudou de figura.

Hannah deu seu primeiro beijo e, no dia seguinte, já era chamada de vadia pela escola. Foi só um beijo. Ela e o cara haviam tido uma paquera legal, o dia foi divertido e terminou com um beijo rápido no parquinho. Mas a vontade de se encaixar fez com que o menino espalhasse boatos sobre aquela tarde – e isso desencadeou em uma série de outras mentiras que trouxeram consequências graves para a vida da garota.

Continuei a série pensando “legal, muito disso realmente acontece na escola, é importante falar, mas por que a galera está tão chocada?”, até que cheguei na parte pesada. Os relatos de Hannah são doídos de acompanhar, porque são reais. Todas as semanas, garotas bêbadas são estupradas nas escolas e universidades, todos os meses, garotas sóbrias também. No entanto, esses acontecimentos – presenciados e vividos – são apenas a gota d’água final em um mar de desgraça e solidão na história da protagonista da série.

Não sei se você se lembra como se sentia quando era adolescente. Nem sei se, por acaso, seus sentimentos se pareciam com os meus. Mas eu era bem sozinha. Estava sempre rodeada de amigos, entretanto era completamente solitária. Não faço ideia se minha mãe se recorda: em muitas noites, eu chorava pedindo para nos mudarmos de cidade, pois eu não era feliz na minha escola e porque as minhas amizades nunca mais seriam como as que tive na infância.

Isso não quer dizer que eu não fui feliz na adolescência. Eu fui. E muito. Tive momentos inesquecíveis, vivi experiências as quais daria tudo para repetir. Mas eu também sofria. A sensação de me sentir deslocada doía mais do que as piadinhas imbecis dos meus colegas playboys. Em casa, era chamada de mal-humorada e dramática. Na escola, a minha fama era de efusiva, porém o “dramática” continuava me acompanhando.

Por essa razão, cada vez que alguém na série dizia “a Hannah era muito drama e eu não estava afim de lidar com aquilo naquele dia”, eu pensava em mim e nos meus amigos. Certamente, a maioria já teve esse sentimento em relação a mim. Se estou um pouquinho triste, resolvo sozinha. Vejo filmes, como brigadeiro, me maquio de palhaça. Entretanto, quando estou na merda, transbordo. Ninguém dá muita bola, só minha mãe. Quando as crises de choro não passam, ela insiste para que eu ligue para a minha terapeuta. Quatro sessões depois, estou novinha em folha.

Por isso, repito: jamais pensei em me matar. Nunca fui diagnosticada com depressão. No entanto, eu já tive momentos em minha vida em que me senti no fundo o poço, sem esperança – e foi justamente nesses momentos que as pessoas queridas mais se afastaram de mim. Lembro-me apenas de uma vez em que minhas amigas interviram e instistiram para que eu procurasse ajuda. E, de novo, quatro sessões de terapia depois, eu já estava forte novamente.

O problema é que algumas pessoas não conseguem recuperar suas forças da mesma forma que eu consigo. Elas chegam ao fundo do poço e por lá ficam. A reação de quem está por perto, normalmente, é não dar bola. “Isso é drama, já passa”. Não passa. Nem sempre passa. Quem está assim não tem forças nem mesmo para pedir ajuda, quanto mais para se salvar por conta própria. E os amigos se afastarem só torna tudo pior.

Apesar de, inicialmente, não ter gostado da atitude de Hannah de culpar os amigos por seu suicídio, no fim, eu compreendi a importância da forma como a narrativa foi construída. A adolescente fictícia não se matou por causa deles, ela se matou porque muita merda aconteceu enquanto ela passava pela fase mais solitária e insegura da sua vida. Ela se matou porque não dava conta de suportar tudo aquilo sozinha.

É por isso que eu acredito na importância de 13 reasons why ter virado série. Assustou muita gente, não assustou? As linhas de atendimento do CVV foram descobertas por muitas pessoas que precisam de ajuda, enquanto uma galera se atentou para a importância de se estender a mão – o ombro, os ouvidos, o colo e os dois braços – para quem precisa.

Repito: não sou especialista, não sei falar sobre as implicações que a série pode trazer para quem está na beira do abismo. O que sei é que muita gente agora vai pensar duas vezes antes de dizer que um amigo “é muito drama” e simplesmente dar as costas. Os sentimentos negativos não tendem a melhorar. É preciso de um empurrãozinho – e, às vezes, mais do que isso – para que quem está no fundo do poço consiga olhar para cima e reúna forças para retornar ao topo.

Para mim, esta é a mensagem de 13 reasons why: seja um estímulo positivo na vida das pessoas, não o contrário; seus amigos precisam de você. Espero que ninguém se esqueça dela quando o hype chegar ao fim.

Ainda é tempo de ser feliz em 2016?

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Eu não gostei de 2016. Este, definitivamente, não foi um ano de alegrias. Além das desgraças e más notícias que dominaram o mundo, minha vida também não teve um saldo muito positivo. Posso dizer, com todas as letras, que não vou sentir a menor saudade quando ele acabar.

Veja, enquanto resmungo, tenho plena consciência dos meus privilégios e que milhares de pessoas achariam um ano repleto de brigadeiro e maratonas de séries o paraíso. Sei que levo uma vida boa e sou muito grata por isso – todos os dias. Porém, a verdade é que eu não fui feliz.

Calma, não é o caso de se preocupar comigo. Eu estou bem. Eu só não estou feliz. É claro que ocorreram momentos de alegria e satisfação, mas as noites indo dormir com lágrimas nos olhos foram maioria absoluta em relação àquelas em que pus a cabeça no travesseiro com um leve sorriso no rosto.

A maior conquista deste ano – que seria o ponto mais positivo de todos mesmo se 2016 tivesse sido incrível – foi ter realizado um sonho de adolescência: comecei a trabalhar em uma revista feminina. E não em uma revista feminina qualquer, mas na maior do país. Essa é uma vitória que vale por várias boas notícias. Eu sei. No entanto, além das pessoas queridas que conheci, ela foi a minha única razão concreta de felicidade.

Passei a metade do ano sufocada em um relacionamento que mais parecia um aquário repleto de água e completamente vedado. Perdi a fome pela primeira vez na vida, achei que talvez estivesse ficando louca, e não fui forte o suficiente para me desprender disso. Precisou que ele partisse para outra e desaparecesse para que eu conseguisse seguir em frente.

No meio disso, o projeto ao qual eu dediquei cada gota de energia do meu corpo em 2015 chegou ao fim. Sem feedback, sem justificativa. Precisei me despedir sem saber o motivo e isso talvez tenha me doído mais que as ligações transtornadas do meu ex no meio da madrugada. Não. Pensando bem, definitivamente, me doeu mais. Juntou os dois e eu perdi a motivação para qualquer coisa que não fosse assistir a The Good Wife.

Quando, finalmente, eu parecia forte o suficiente para seguir em frente, nada demais aconteceu. O melhor momento do meu segundo semestre foi meu aniversário. Nisso, devo dizer, tenho muita sorte. Consegui lotar duas comemorações: uma em SP e outra em BH. Nessa hora, a gente vê o quanto de pessoas nos querem bem e isso é tudo na vida. Porém, desde então, 3 meses se passaram e nada demais aconteceu. Parece que minha vida está em stand by, o que significa que a minha maior emoção neste tempo foi assistir a 7 temporadas e um reboot de Gilmore Girls.

E eu não sou do tipo que fica sentada no sofá – apesar de passar muito tempo por lá – esperando as coisas acontecerem. Eu vou atrás. Interajo com desconhecidos, visito lugares inéditos e sei muito bem me divertir comigo mesma. Sou do tipo que caminha dançando na rua enquanto houve música, planeja os encontros da galera e sabe valorizar os pequenos instantes da vida.

Veja bem, a verdade é que, depois de um início de ano infinitamente merda, eu esperava algum tipo de compensação neste final. Alguma surpresa, algo transformador. Não sei se 2016 tem energias para esse tipo de coisa ou se gastou ela toda sendo um ano sofrido para a maioria das pessoas. Aliás, não sei se alguém realmente foi feliz neste ano. Olho ao meu redor e o que vejo são indivíduos exaustos que batalharam muito para levantar da cama ao longo dos últimos meses.

De qualquer forma, não quero que este ano seja uma grande mancha preta com dois ou três pontinhos de glitter dourado em minha vida. Eu gosto de olhar para trás e sentir saudade. Eu aprecio as vinte e quatro horas do dia. Por isso, selo aqui um acordo comigo mesma: o ano ainda tem 31 dias até acabar, dá tempo de virar o jogo. Um mês inteiro para 2016 valer a pena. São 31 oportunidades de chegar em 2017 mais inspirada. Bora aproveitar?

O especial de ‘Gilmore Girls’ era exatamente o que eu precisava neste fim de ano

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Hoje acordei às 14 horas, preparei um bom café e me sentei em frete à televisão. Pedi um delivery de comida chinesa, já que – por algum motivo que desconheço, mas desaprovo profundamente – as pizzarias de SP só fazem entregas a partir das 18 horas. Café e delivery, esse era o único jeito possível de iniciar a minha maratona de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar.

Sou fã da série há três meses e as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto logo no momento em que apertei o play na Netflix – imagino como deve ter sido para quem se apaixonou pelas mulheres Gilmore há 16 anos. É inverno em Stars Hollow e Lorelai sorri para a neve com a mesma alegria tranquila que eu sorrio quando reúno vários amigos no mesmo programa. Logo chega Rory e as duas começam aquele diálogo veloz, cheio de referências pops e irônia, que tornam a história delas tão gostosa de acompanhar.

Passaram-se 9 anos desde que Luke deu um beijão de reconciliação em Lorelai e Rory saiu para cobrir a campanha do Obama para presidente. A ansiedade em saber o que aconteceu com elas desde então é tão grande quanto a vontade de os quatro episódios do especial durarem para sempre. A história vai se desenrolando e está tudo ali, não falta nada. Parece que é Natal, mas sou apenas eu assistindo TV sozinha em casa enquanto devoro uma caixa de yakissoba e outra de frango empanado. E isso é perfeito.

Lorelai e Rory estão passando por situações que se encaixam perfeitamente com os questionamentos que tenho me feito neste fim de ano. A filha principalmente. Ela entrou para o mundo do jornalismo com os mesmos sonhos que a maioria de nós entra quando embarcamos na profissão. Contar histórias relevantes! Fazer a diferença!! Mudar o mundo!!! Mas é 2016 e as pessoas preferem fazer testes do BuzzFeed e assistir a vídeos de desconhecidos falando sobre a própria vida no YouTube do que ler um bom artigo ou um livro reportagem.

Sou jornalista e não trocaria a minha profissão por nada. Porém, com as redações cada vez menores, morro de medo ser obrigada a encarar um plano B para me sustentar. Eu não tenho um plano B. Além disso, sempre sinto que deveria estar fazendo mais. Trabalhar com produção de conteúdo online é cruel. As pessoas só clicam nas notinhas e listas mais bobas que você faz. Quando, finalmente, tem tempo para produzir uma reportagem relevante, os poucos leitores encontram algum jeito muito cruel de lhe criticar por não ter escrito sobre o tema da forma que elas escreveriam.

Ver a Rory procurando emprego em uma redação aos 32 anos é angustiante. Ela leu todos os livros imagináveis, conhece tudo de cultura pop, é uma mulher curiosa sempre em busca de aperfeiçoamento e sabe escrever um artigo de opinião como ninguém. Desempregada. E não é porque ela não é boa o suficiente, mas porque, hoje em dia, é mais fácil virar uma blogueira mundialmente famosa do que conseguir um emprego na área editorial.

Vê-la nessa situação, me faz questionar ainda mais sobre a minha carreira. Estou no caminho certo? Por que não escrevo um livro? Será que começo a produzir reportagens por conta própria no meu tempo livre? Se me organizar melhor, eu consigo fazer toda a parte gerencial do meu trabalho e ainda produzir matérias relevantes no horário de serviço? E aos 32 anos? Será que, até lá, já terei influenciado positivamente a vida de alguém com minhas palavras? Onde estarei trabalhando? Em que cargo? Já vou ter lançado um livro?

Outro aspecto da vida de Rory é que ela segue enrolada nas questões amorosas. A sociedade nos faz acreditar que, se você não tiver encontrado alguém para passar o resto de sua vida até os 28 anos, você é uma fracassada. Rory – assim como eu – sabe que existem coisas mais importantes que isso. Inclusive, é bom ver sua independência sexual. Ela tem um namorado nos EUA, pega o regularmente ex em Londres e, finalmente, faz sexo casual pela primeira vez. Porém – assim como eu –, Rory fica carente da segurança que um relacionamento estável e cheio de companheirismo trás.

E esse é um ponto que, pelo meu histórico, eu não imagino sendo resolvido na minha vida. Nunca namorei, tive alguns rolos que se estenderam por mais de três anos e sempre me dei muito mal quando me envolvi sentimentalmente com alguém. Porém, quando vejo Lorelai, sei que há esperança. Aquele amor firme e intenso que quase toda menina sonha desde a adolescência – por mais feminista que seja – pode chegar depois dos 32. Para ela chegou. Ver o quanto Luke e Lorelai são companheiros é acalentador. No entanto, a série mostra que, após o casal se beijar no “fim”, por melhor que seja a relação deles, os conflitos nunca acabam. Isso é bom. Estabilidade demais é entediante. Mulheres como eu e as Gilmore não gostam de tédio, afinal.

Já passava das 22 horas quando, depois de muitas lágrimas de alegria e melancolia e alguns aplausos de empolgação, chegou o momento das quatro palavras finais. Aquelas que a criadora Amy Sherman-Palladino guardava há anos – e não aconteceram antes porque ela e o marido não participaram da sétima temporada da série.

(agora é a hora que você para de ler se não tiver assistido ao especial ainda, porque eu não quero ser a pessoa terrível que conta lhe conta isso. você precisa assistir!! – sério, segure a ansiedade)

Rory, enfim, tem um foco profissional: está escrevendo o livro da sua vida. Também colocou um ponto final nos relacionamentos que, claramente, não têm futuro. Lorelai está casada com Luke e bem resolvida com Emily, sua mãe (o momento atual dela é outro que rende um post inteiro!). As duas estão sentadas no coreto na praça central de Stars Hollow e Rory solta: “mãe, eu estou grávida”. Fim.

Eu sorrio. Consigo, finalmente, secar as lágrimas que escorreram ao longo dos quatro episódios. Rory está grávida! Assim como na vida real, ainda tem mais por vir na história das Gilmore. Os desafios nunca acabam. Sinto certo alívio. Não cheguei a nenhuma conclusão sobre minha carreira, muito menos sobre a minha vida amorosa. Gilmore Girls, afinal, não é sobre respostas. Nunca foi. Gilmore Girls é sobre viver, encarar desafios, se decepcionar e, principalmente, aproveitar a sua jornada da melhor maneira possível.

Meu sorriso é o mesmo que Lorelai sorria no início do primeiro episódio do especial, o mesmo que sorrio quando reúno vários amigos. Amanhã a vida continua com todos os seus desafios e questionamentos. As perguntas que, algum dia, tiverem respostas serão prontamente substituídas por mais dúvidas, outras serão mistério para sempre. O importante, enfim, é nunca esquecer de apreciar e curtir os detalhes do percurso. Hoje, por exemplo, foi um dia inteiro de contentamento: delivery, Gilmore Girls e minha própria companhia. Nunca vou me esquecer deste sábado especial.

Finalmente terminei “Gilmore Girls” e posso fazer este desabafo que estava entalado há um tempão

*contém spoilers

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A primeira vez que vi “Gilmore Girls” foi no SBT. Eu não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas adorava quando ligava a TV e estava passando. Por muitos anos carreguei um carinho pela série, mesmo sem me lembrar de muito mais do que o nome de uns cinco ou seis personagens de destaque. Sempre foi uma história a qual eu quis muito ter visto toda, mas nunca rolou. Até que a Netflix disponibilizou todas as sete temporadas em julho deste ano.

Após diversos sábados e madrugadas de maratona, noites e noites estirada no sofá vidrada na televisão enquanto comia brigadeiro, hoje, enfim, terminei os 152 episódios da história de Rory e Lorelai Gilmore. Ao longo desses três meses, precisei lidar paralelamente com as notícias e boatos gerados pelo revival da série – com estreia no fim deste mês. Logo me chamou a atenção a disputa que o público começou a fazer sobre com qual namorado Rory deveria ficar no especial. Afinal, eu havia acabado de conhecer o Dean e já precisava lidar com o fato de que esse romance adolescente, a qualquer momento, chegaria ao fim e ainda viriam Jess e Logan.

Confesso que, devido às circunstâncias, analisei a ação de cada um dos rapazes ao longo dessas sete temporadas. Foi inevitável! Vocês torciam tanto por eles! Em alguns momentos me perguntava “mas já se passaram nove anos, será que a Rory não conheceu alguém melhor?”, porém, por toda a pressão ao redor, eu sentia como se também precisasse escolher um time – e escolhi. No entanto, quando descobri que a garota recém-formada terminava sozinha porque preferiu se dedicar ao início da sua carreira de jornalismo antes de se prender a alguém, a única coisa que eu consegui pensar foi “sério mesmo pessoal?”.

Uma menina de vinte e dois anos se forma, vai cobrir a campanha completa do Barack Obama para a presidência – todos sabemos o resultado político e jornalístico disso – e vocês estão preocupados em descobrir com qual ex-namorado de mais de nove anos atrás ela vai ficar? É isso mesmo? Não sei como foi a vida amorosa de vocês até o fim da faculdade, mas eu espero imensamente que, daqui uns anos, eu não precise escolher entre nenhum dos meus exs desse período para as pessoas ficarem felizes por mim.

Assim como Rory, sou jornalista. Assim como a maioria dos seres humanos, sonho, sim, em encontrar, algum dia, isso que a sociedade vende como amor. Não tive muita sorte nos meus casos amorosos e sei que são tempos difíceis para os apaixonados por fatos do cotidiano e por grandes histórias do mundo real. Porém, sinceramente, se eu pudesse escolher entre consertar o jornalismo ou o meu coração, eu escolheria mil vezes o jornalismo.

Não sei se vocês acompanharam a mesma Rory que eu, mas tenho certeza que aquela menina que vimos crescer ao longo de sete temporadas também escolheria o jornalismo. Ela termina a série a caminho de uma das maiores coberturas da história do jornalismo americano. O que acontece depois? Ela é contratada por algum jornal impresso, como sempre sonhou? Segue em publicações online? Tenta outras mídias? Quais assuntos ela cobre? Já fez reportagens premiadas? Definitivamente, foi essa a história que ficou em aberto.

É claro que tenho interesse em saber como fica seu coração. Eu sou uma das maiores fã de histórias românticas do mundo. Sei que, em algumas noites e finais de semanas, faz a maior falta ter quem te dê afeto e que, só de olhar nos seus olhos, mostre o quanto você é importante. Tenho consciência: por mais bonito que soe, nossas batalhas e vitórias pessoais não enchem o nosso coração por completo. No fim, todo mundo sonha em ser feliz no amor – e torce para que seus personagens favoritos também sejam. Só fiquei preocupada de, durante os últimos meses, os únicos spoilers de “Gilmore Girls” que recebi terem sido sobre Dean, o Jess e o Logan. A série fala sobre tanta coisa a mais!

Espero que a Rory, agora com 32 anos, tenha encontrado um companheiro ou, então, acabe conhecendo alguém bacana nesse revival. Pode até ser algum dos caras do passado, vai saber! Meu ponto é: as pessoas precisam lembrar que o mundo é mais do que encontrar a metade da sua laranja ou não morrer sozinho.  Colocar a felicidade toda de alguém nas mãos de outra pessoa não é justo. Nunca é demais lembrar que você consegue conquistar valiosas alegrias por conta própria. E eu não estou falando de ser consagrado na profissão ou de encher o bolso de dinheiro, mas de correr atrás dos seus sonhos. Seja eles quais forem.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro

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“Toca Aninha Sem Tesão” eu dizia para qualquer amigo meu que pegasse o violão. A maioria não conhecia essa música, muito menos a banda que tocava ela: Faichecleres. Eu, do alto da minha virgindade, adorava o som sacana dos caras. Um pouco culpa da sonoridade retrô do rock n’ roll de suas canções, mais culpa ainda da minha enorme libido enrustida de adolescente. “Toca Aninha Sem Tesão” eu insistia, até que alguns amigos se arriscaram a aprender seus acordes só para me fazer mais feliz na rodinha de violão.

A batida frenética mal iniciava e eu já começava a delirar, pulando a cada fim de riff e chacoalhando os quadris como se estivesse em um baile dos anos 1960. “Sempre que eu chego mais perto, você pede pra eu parar… rá ráa, rá ráa, rá-rá rá-rá rá-ráaa” começava a letra. Fosse na rodinha de violão ou no meu quarto, eu enchia os pulmões para entoar cada palavra em alto e bom som. “Vem cheia de não me toques, cachorro tire as mãos de mim… E não dá, não há tempo a perde-ê-er”, continuava…

Eu gostava muitto dessa música e a batucava na carteira da oitava série – a última da primeira fileira à direita da sala – enquanto cantarolava sua letra no meio da aula de matemática. O João Pedro, que sentava na minha frente, me mandava calar a boca e sempre acabava levando esporro da professora, já que eu a convencia de que era ele quem estava fazendo barulho na hora errada. Logo ele também desistiu de lutar contra o meu fascínio pela canção e, no fim, acabou aprendendo a cantá-la também.

Eu tinha 15 anos. Eu não fazia ideia de que estava idolatrando uma composição sobre estupro. As frases eram claras, eu que não entendia muito bem. “Pois sei que fantasias sujas explodem dentro de você… Cansei, cansei de me humilha-á-ar” – prosseguia o vocalista – “e agora nem que seja a força, nem que chore sem parar, ninguém vai te ouvir gritar”, então o resto da banda fazia um coro à la Beatles em Twist And Shout: “aaah!, ahhh!!, áaaah!!!”. O trio cantarolava os gritos da vítima de estupro. Era isso que aquele barulho ilustrava. Eu cantarolava junto.

E antes que me perguntem: sim, eu sabia o que era estupro. Eu já tinha medo de ser estuprada. Eu tenho medo de ser estuprada desde que a minha babá disse estar acontecendo alguns casos de estupro em BH. Ela me contou bem assim, à caminho da natação: tem alguns homens transando à força com mulheres aqui na cidade e fugindo por uma mata tipo essa aqui do bairro. Eu tinha 9 anos e, desde então, eu tenho medo de andar perto de matas que – supostamente – facilitam a fuga de estupradores. Então, é claro que, oito anos após esse episódio, eu tinha consciência do que era um estupro. Eu só não entendia muito bem.

Naquela época, na oitava série, aos 15 anos, eu tinha para mim que estupro era uma coisa que ocorria na rua. Você estava andando e – vrá! – um filho da puta desconhecido aparecia, te encurralava em algum beco e te largava lá, violada, com uma vergonha tão grande que você não conseguia pensar em mais nada, só em tirar a própria vida. Eu não tinha noção que o estupro, na maioria das vezes, parte de algum conhecido: de um parente, de um colega ou, até mesmo, do seu namorado. Eu não sabia que Aninha Sem Tesão era um apelido escroto para uma menina que, simplesmente, não queria transar com o eu lírico da música.

E chegava o refrão: “Aninha sem tesão, não vejo condição, é superficial / e a minha intenção, é te dar meu coração, e não te fazer mal / Eu bebo teu licor, Aninha sem pudor / Tu come meu mingau au au, não vai fazer dodói / Uh uh uh…” O estupro era romantizado. Eu percebia que o cara estava sendo babaca ao prometer o coração à menina. Era claro para mim que o eu lírico estava falando aquilo só para ela querer transar com ele. Eu achava graça na canalhice dele. Eu me divertia. Eu continuava a cantar: “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába…”, de novo, “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába… Hey!” e vinha o solo de guitarra.

Passaram-se um ano, dois, e eu continuei gostando da canção. Mais para a frente, quando o shuffle do iTunes me surpreendia com ela, era sempre uma alegria muito grande. Eu nunca pulava para a próxima. Passaram-se três, quatro anos, e nada mudou. Foi só no início deste ano, dez anos depois, que eu entendi do que Aninha Sem Tesão se tratava. Demorou isso tudo para eu compreender seu real significado. Poderia, inclusive, ter demorado ainda mais se o assunto não tivesse entrado no debate cotidiano graças às feministas (e eu me incluo nessa).

Foi foda admitir que minha música favorita aos 15 anos era sobre estupro. Foi triste me dar conta que eu me divertia com uma letra tão explícita sobre violência sexual. Porém, apesar dessa dose de decepção com minha ingenuidade adolescente, foi importante ter, enfim, essa compreensão. Ficou claro, de uma vez por todas, que ouvir a experiência do outro é fundamental para compreendermos, cada vez mais, as nossas próprias vivências. Ouvir o outro nos torna mais humanos e, principalmente, nos torna mais nos mesmos.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro. Não é mais. A única coisa que eu posso fazer agora é: trabalhar para que eu continue nessa constante evolução – e a nossa sociedade também.

Minha vizinha tem preguiça das palavras. Coitada.

vizinha

“Tchau. Te amo.” disse a vizinha antes de bater a porta do apartamento. Um “te amo” tão mecânico que pensei talvez ter ouvido por engano. Devia ser palavra de despedida, não frase de declaração de amor.

Quando eu era adolescente era recorrente. Ele falava “tchau”, eu entedia “te amo”. Ele falava “te amo”, eu entendia “tchau”. Então eu sempre falava “tcham”, para parecer que eu respondi a mesma coisa que ele me disse e não ser melosa ou grossa na hora errada.

Mas, não, com certeza, a vizinha disse “Tchau. Te amo.” e bateu a porta do apartamento. Em seguida, saiu andando em direção ao elevador com a mesma vontade de viver que eu sinto quando estou com bronquite. Eu fui logo atrás – afinal, era esse mesmo o meu destino. Paramos lado a lado enquanto o mesmo ainda não se encontrava no nosso andar.

A vizinha, então, me olhou nos olhos e depois desviou. Preferiu olhar para a porta do elevador do que trocar um breve cumprimento. O que esperar, afinal, de uma pessoa que fala “te amo” por hábito e não por paixão, pensei. Eu, que só falo “eu te amo” por amor mesmo, não deixei por menos. Botei meu melhor sorriso na cara – mesmo que ela não estivesse mais me olhando – e falei “Bom dia!”. Em resposta, ela resmungou alguma coisa da mesma família do “tcham” que eu dizia na adolescência.

Que pessoa desnecessária! Eu refletia enquanto descíamos o elevador. Lembrei-me do dia que atravessei o nosso corredor e ouvi seu namorado – ou será marido? – cantando alegre no chuveiro. O banheiro deles dá para o nosso corredor e essa é a única impressão que eu tenho do rapaz. Meu vizinho é um cara que canta no chuveiro.

Já minha vizinha fala “eu te amo” no automático e não aprendeu que, quando o elevador chega no térreo, a gente segura a porta para a outra pessoa e se despede trocando sorrisos. Alguns, mais simpáticos, até arriscam um “tenha um bom dia!”. Mas ela não.

Minha vizinha sai reto e não se dá ao trabalho de agradecer nem quando o senhor idoso, também morador do nosso prédio, segura o portão com dificuldades para ela passar calada pela portaria. Grossa. Enfim dou bom dia para o porteiro e percebo: meu “bom dia, seu Mário” tem mais sinceridade que o “Tchau. Te amo.” dessa vizinha.

Pobre vizinho cantor de chuveiro. Pobre vizinha que tem preguiça das palavras. Desejo que as coisas melhorem para vocês em breve. De coração.

Crônica é para fazer carinho, não para alimentar o ódio

cronica

Na adolescência, eu sempre lia a última página da revista primeiro, porque é lá que costumavam morar as crônicas. Os melhores livros que li na escola eram copilados de histórias curtinhas, escritas por alguns dos melhores jornalistas-escritores que o Brasil já teve, sobre a vida deles. Os sentimentos deles. As pessoas que convivem com eles. Sobre eles.

Eu, sentada na última fileira do canto esquerdo da sala da sétima série, ficava imaginando o tanto que ia ser legal quando eu tivesse minha própria coluna para escrever crônicas sobre a minha própria vida. E que legal ia ser as pessoas lerem meus textos curtos e pensarem “nossa, isso acontece mesmo!”, “puts, igual a mim!” ou, quem sabe até, chorarem em empatia.

No fim da adolescência, fundei este blog. Os melhores textos que escrevi foram feitos após términos de relacionamento – bendito é o coração partido, rei da inspiração, que me faz usar com facilidade um tantão de letrinhas para libertar de dentro todo o sentimento que me sufoca a cada história de amor estraçalhada. Outros que se destacaram foram sobre a morte da minha cadela, o meu medo de ser estuprada e meus ataques de carência. Todos textos sobre mim.

Ah, e imaginem só a minha alegria toda vez que um inbox chegava dizendo “esse seu texto aqui parece até que fui eu que escrevi”! Em certas ocasiões, fui abordada na Savassi e na faculdade. “Chorei muito seu texto sobre a cachorrinha” (!). “Tive um ex igual ao seu” (!!). “Você me entende” (!!!). A satisfação de descobrir que traduziu involuntariamente o sentimento de alguém é ainda mais fascinante do que a sensação de terem inconscientemente traduzido os seus sentimentos.

Já faz tempo, no entanto, que ando incomodada com minha falta de dedicação a mim mesma. Passo o dia todo escrevendo – afinal, sou jornalista –, mas os relatos pessoais têm sido cada vez mais raros (e me fazem enorme falta). Até que, na sexta passada, quando li as últimas páginas de “Trinta e Poucos”, do Antônio Prata, tomei uma decisão: toda segunda-feira vou escrever aqui no blog. No mais tardar, terça ou quarta. Mas vou escrever. Afinal, não tenho coluna em publicação nenhuma – como sonhava acordada na adolescência – mas tenho este blog. E um blog, para existir de fato, precisa ser atualizado. Mais que isso: eu, para existir de fato, preciso escrever minhas crônicas e contos.

Enfim, chegou o grande dia. A primeira segunda-feira de muitas frutíferas que virão. E, neste dia de grande importância para mim (e para o Cunha, que vai ser julgado, e para o Paulo Zulu, que postou um nude frontal no Instagram), o assunto mais falado foi justamente uma crônica. Em sua coluna na Folha, Gregório Duvivier fez uma homenagem ao seu namoro com Clarice Falcão. Uma homenagem com ares de gratidão e uma pitadinha de marketing, já que eles estão lançando um filme juntos (e o título do filme estava no título da coluna).

Eu a li logo pela manhã. Achei bonita. Leve. Dei uma choradinha. Tão bonito quem sabe valorizar o amor vivido, pensei. Tão triste que o amor normalmente se transforme em ódio, reflito toda vez que algum amigo termina o namoro ou algum parente se divorcia. Sequei as lágrimas. Compartilhei o link da coluna no Facebook e fui cuidar do meu ganha pão. Assunto encerrado.

Engano meu. A crônica virou polêmica. Uma crônica açucarada, com grande dose dos clichês gregorianos e falconianos – que eu, fã dos trabalhos da família dela e admiradora das criações dele, claro, adorei –, virou fogo cruzado. “É marketing, seus troxas!”. “É um texto abusivo, de um cara abusivo!”. “Esquerdomacho de merda!”. Centenas de acusações foram feitas ao autor, nenhuma prova das acusações me foi entregue quando solicitei – comentei em muito tópico perguntando onde leram aquilo (afinal, não gosto de gostar de gente babaca), ninguém me retornou com a fonte –, defenderam incessantemente Clarice sem que ela precisasse (ou quisesse) ser defendida.

Virou uma guerra, virou ódio.
Virou desgaste.

Era uma crônica.

Uma crônica sobre afeto. Sobre gratidão. Com uma pitadinha de marketing, é verdade. Mas uma crônica. E o que é, afinal, uma crônica, se não o gênero textual mais doce já criado? O que é uma crônica, se não um diário escrito com gracejos e certa dose de ironia para ser aberto ao público?

Crônica combina com café coado e pão de queijo quentinho. Crônica não combina com fúria. Nem com suposições hostis.

Crônica tem a ver com empatia.

(Não devia ser tão difícil de entender)

O frio me deixa desesperadamente solitária

solidao frio

Eu ando muito melancólica. Com certeza, é por causa do frio. Tem potencializador mais eficiente que esse quando o assunto é nos sentirmos sozinhos? Perdi as contas de quantas panelas de brigadeiro eu preparei (e comi) no último mês, ou de quantas vezes eu chorei porque meus amigos ou familiares não me deram a atenção que eu precisava em determinado momento. Vocês não tem noção da quantidade de briga boba e unilateral em que eu me meti nas últimas semanas por estar melancólica – e ninguém me dar atenção por, obviamente, não ter nada a ver com isso.

Nesse furacão emocional, voltei a recapitular meu último relacionamento como se ele tivesse acabado ontem. Acho que, com isso, eu queria encontrar qualquer comprovação de que existe a chance de, um dia, eu conhecer alguém que tenha entre as suas prioridades me fazer feliz. Alguém que realmente não se importe com o fato de o frio me deixar tão dramática. Uma pessoa que faça as panelas de brigadeiros serem menos urgentes.

Dá para contar nos dedos de uma mão quantas vezes eu me apaixonei. Quem me conhece sabe que, toda vez que esse milagre acontece, meu coração jorra sangue antes de se abrir. Por medo. O coitado já tomou muita porrada e, sabiamente, tem receio de tomar mais. Então, eu nunca soube se as coisas não deram certo porque eu passei tempo demais estancando o sangue antes de aceitar a paixão ou se porque eu realmente não tenho a menor vocação para ser amada.

Para alguém como eu, que costuma não ter a menor paciência para segundos encontros e adora tomar suas próprias decisões sem ninguém meter o dedo, é difícil assumir a falta que faz não ter tido um relacionamento que durou mais de quatro meses. Quando eu era adolescente, eu tinha mais coragem de assumir minha carência. Colocava a solidão na boca de personagens e pronto, tirava o desespero das minhas costas. Agora não, eu guardo para mim. Enrolo-me na coberta e fico torcendo para a angústia passar.

Além dessa covardia, eu acho bonito falar que a gente não precisa de ninguém para ser feliz, que isso de casal é uma coisa que a sociedade nos impõe e da qual precisamos nos livrar. Muito fácil encher a boca para defender essa crença, enquanto tenho uma prateleira lotada de livros de amor e vejo todos os filmes de romance assim que estreiam no cinema.

Por isso,  hoje escrevo aqui para dar um recado para mim mesma. Não tem nada de errado em querer amar e ser amada por mais de quatro meses, no fundo, todo mundo procura por isso. E, definitivamente, não tem nada de errado em não se interessar pela maioria dos caras que você fica. Eles realmente não tem nada a ver com você, a não ser o gosto por cerveja. Desencana. Enquanto o calor não vem, o importante é continuar se divertindo a cada colherada de brigadeiro e se segurar para não desaguar sua solidão em mais nenhuma pessoa querida. Essa melancolia tem nome: frio. Segura que já passa.

O meu 2016 começa agora

2016

A vida tem dessas. Depois de ondas enormes de felicidade, é preciso lidar com dolorosos períodos de descontentamento. E foi isso que me aconteceu nesse início de ano.

2015 foi um ano completamente transformador e sem nenhum traço de tédio. Eu me mudei de cidade, fiz novos amigos incríveis, enfrentei dois engrandecedores desafios profissionais, participei de eventos espetaculares e fui muito, muito feliz. Tão feliz que ignorei com facilidade as diversas pedras que iam surgindo no meu caminho. Até que a conta chegou.

A intensidade foi tanta que 2015 não terminou no dia 31 de dezembro. Durante os três primeiros meses do que vocês já chamavam de 2016, eu me encontrei em um enorme abismo de finalizações. Basicamente, fui engolida por minha própria ansiedade enquanto experienciava o termino de dois elementos de grande importância na minha vida.

Nesse tempo, precisei suportar os derradeiros meses do projeto ao qual entreguei todo o meu sangue ao longo do ano que se passou, enquanto tentava segurar minhas apreensões em relação ao meu futuro como jornalista. Ao mesmo tempo, precisei lidar com a mente complicado do meu atual ex, que não tinha coragem de me deixar partir, mas também não queria mais ficar ao meu lado.

Por mais que eu pareça forte e já tenha sobrevivido a muitos desastres emocionais, dessa vez, eu fiquei sem forças. Perdi a fome pela primeira vez na vida em janeiro, chorei durante todas as noites de fevereiro e, ao longo de março, tentei controlar as lágrimas que insistiam em saltar dos meus olhos durante o horário de trabalho.

Eu me perdi de mim. Não vou negar que dei algumas risadas sinceras nos últimos três meses, mas a enorme nuvem de desesperança que me rodeava ofuscava as boas lembranças assim que os acontecimentos empolgantes chegavam ao fim.

A minha sorte é que, na vida, longos períodos de sofrimento também costumam ser automaticamente substituídos por ondas de felicidade em abundância. E parece que esse novo mar, agora, está começando a molhar os meus pés. Enfim os resquícios de 2015 ficaram para trás. Finalmente o meu 2016 vai começar.

Pode vir, ano novo! Estou mais forte do que nunca.