Me vê cinco

DSC02846-001

O tema é recorrente nas mesas de bar. Todo amigo tinha uma opinião para me dar a respeito: experimenta. É perigoso. Você vai adorar. Cuidado para não viciar.

Tentaram me alertar de que eu poderia me encantar e querer sempre mais. Dali pra frente, eu sairia em busca; ia pesquisar diferentes origens, com diferentes níveis de força. Eu não ia parar.

“Você vai nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas, mesmas comidas e bebidas, mas vai sentir falta de algo. Vai querer mais daquela experiência. Vai ver que as coisas como eram antigamente já não têm a mesma graça para você.”

Fala-se disso, sim, mas pouco, deveriam falar mais! Avisar que às vezes bate com mais força do que a pessoa está preparada. Que é difícil se recuperar. Às vezes leva tempo, às vezes deixa sequelas – ou a pessoa traumatizada.

Não foi por falta de aviso. Me disseram que era um caminho sem volta. Estavam todos certos. Tudo isso realmente aconteceu quando eu comecei a me envolver com pimenta.

Alguém também me ensinou a roer as unhas, mas isso não sei quem foi

IMG_4344-001

Uma vez escrevi que  “não sou nada mais que uma peça no colorido quebra-cabeça que é a minha história”. Eu queria dizer disso tudo (e tod@s) que, ao longo da vida, vão fazendo a gente ser quem é.

Lá estão os aparelhos ideológicos do estado, sim, sempre. A Escola ensinando a obedecer, a Igreja ensinando a aceitar sem questionar, a Família ensinando a ser correto – seja lá o que isso signifique na prática. Em várias culturas, países, tradições diferentes, como grandes verdades universais. Mas a realidade é que é da ordem do imprevisível e incontrolável quais serão as marcas que realmente seguirão conosco. Elas surgem despretensiosas, em qualquer hora do recreio, mas não se vão quando o sinal volta a tocar.

Durante os anos de 2000 e 2001, morei em Goiânia com minha família. Tive uma amiga incrível, com quem criei o jornal CPS, que significava Crianças Para Sempre. Nós tínhamos 8 ou 9 anos de idade. Lá pelos 19, fui procurá-la no Facebook, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que ela, assim como eu, estudava Jornalismo? Nunca mais nos vimos. Eu poderia falar que o jornalismo foi a grande marca do nosso encontro na vida, mas seria uma mentira descabida. O jornal era só mais uma das nossas trocentas brincadeiras inventivas.

A herança-bônus da Larissa para mim foi um dia de aula em que a professora (tia Sandra, se não for invenção minha) disse: “que gracinha essa Larissa. Toda vez que entrego um papel para ela, ela fala ‘obrigada’.” Eu e Larissa éramos suadas, descabeladas, descalças; nunca inteiramente limpas, caladas ou comportadas. Mas esse cuidado do fundo do ser dela me tocou – e foi para sempre. A bala Chita no sinal vermelho, o troco, o panfleto. Todos esses ‘obrigadas’ nasceram de Larissa e passaram a morar comigo também.

Em Sete Lagoas, na passagem do ensino fundamental para o médio, conheci uma figura memorável em vários sentidos (tão querida que carregamos, eu, ela e mais outras preciosidades, um coração tatuado coletivamente no pulso). Débora leva em torno de si algumas dezenas de boas e divertidas características. Mas, de novo, há algo dela que carrego no cotidiano, no todo dia que meu ser é.

Dando nome a alguns dos adjetivos, Débora é hilária e charmosa ao sentir raiva de alguém. Eis que um dia ela sentenciou: “Que raiva, nem me cumprimentou pelo nome!”. E assim, simples como a chuva que cai, eu percebi que o nome importa. Descobri que eu me sentia bem ao ser cumprimentada pelo meu nome, e que provavelmente também faria esse bem às pessoas que assim eu cumprimentasse.

A lição de Débora varia de duas a quatro sílabas. Não deve somar um décimo de segundo, nem um mililitro de saliva. Mas, a cada vez que eu a utilizo (em todos os dias em que falo), é luz e delícia no peito. É olhar para alguém, por mais distante que esse alguém seja, e dizer (sem dizer): ei, te conheço, te reconheço, você para mim importa, seu sorriso importa, o deus que está em mim saúda o deus que está em você. Três sílabas, 0.08 segundos, muito menos saliva do que eu gasto cuspindo no ferro de passar roupa para ver se ele já está quente.

E agora chegamos ao meu aprendizado duplo, que eu só soube que aprendi depois de passar numa prova que nunca fiz. Por gentileza pura e gratuita, a Bárbara, uma estudante da mesma faculdade que eu, resolveu me falar que eu sabia abraçar, que eu abraçava “de verdade”. E eu pensei “uai, maizé?”.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o abraço da minha irmã. Eu costumava falar que ela tinha os braços de um grilo… até que ela te abraça com a força que a Terra usa para girar todos os dias. Quando a gente se encontra e a Lívia vem com aquele abraço, ela une corpo, alma, espírito, mente, coração, todos os órgãos, chackras, neurônios, sentimentos, tudo ali, naquele espaço, naquele tempo, naquele encontro, naquele abraço. Nenhum centímetro do perispírito divaga por qualquer outro lugar. É só ali, naquele amor, que se quer estar. O abraço dela é o maior dos gestos silenciosos a gritar: estamos junt@s, e isso é maravilhoso, eu não queria estar em nenhum outro lugar, que bom que aqui estamos, deixa eu te esmagar!

Fernanda, minha segunda professora de abraço na escola com E minúsculo, sem boletim nem diploma, me deu a primeira (não)aula no dia em que nos conhecemos. Eu estava tentando uma vaga de estágio no programa em que ela era produtora e repórter, e tinha certeza que a entrevista tinha sido um fracasso. Como pegava mal eu tentar sair derretendo discretamente pela janela do sexto andar, fui até a portaria do prédio para ir embora, e Fernanda me acompanhou. Antes de ir, ao lado da roleta, ela me deu um abraço que tenho certeza que foi na alma também. Eu pensei: “é, acho que até mereço um abraço desse, depois desse desastre de entrevista”. Mal sabia eu que aquele abraço iria se repetir diariamente, pelos dez meses em que juntas trabalhamos. Mal sabia eu que o abraço da Fernanda é uma tatuagem que ela sai distribuindo pelo mundo, a encher os caminhos de sentido, de força, de fé, de afeto.

Aprendi a tabuada, a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, a teoria da agulha hipodérmica e também uma porção de coisas belas, intangíveis e infinitas – que ninguém teve a intenção de me ensinar. Pólens que abelhas deixaram cair em seus voos e (obrigada ao ar, ao vento, ao céu) floresceram em mim. Eu sou feita de uma porção de pessoas normais, que sentem raiva, brigam e às vezes jogam papel no vaso. Levo de presente o que elas tem de mais humano e incrível – que são elas mesmas, em seus pequenos e despretensiosos detalhes.

Às mestras da minha vida, obrigada pelas sementes. Por onde flor, vocês vão comigo.

Amor em tempos de cólica

bloco do amor

Não sei exatamente quando começou, mas qualquer dia me peguei pensando: “então isso é crescer?”. É isso que falavam que é bonito na gente quando somos novos, mas que vai se perdendo aos poucos, até desaparecer?

Não sei nem determinar o que é o “isso”. A inocência, a espontaneidade, a prontidão em demonstrar afeto?

A primeira vez que me vi vendo o amor subir à minha mente, pedir para virar linguagem e eu o silenciar até que ele desistisse foi há pouco mais de dois meses. Éramos um grupo de amigos se reencontrando um ano após uma longa, transformadora e inesquecível viagem; um de nós era agora pai e levou sua flor, com exato um mês de idade, para que a conhecêssemos; era a primeira vez que víamos o filme que juntos fizemos. Para uma aficionada por datas, como eu, era um prato cheio. Para uma apaixonada por eles, como eu, era lua cheia.

Mas algum departamento de mim tentava domar os arrepios e dizer: ainda é só uma exibição. Uma reunião. Uma noite.

Em determinado ponto eu não resisti, tirei uma foto da gente ali sob o céu, as cobertas e o sertão que logo se projetaria no ar. No celular a foto ficou. Guardada. Assim como tudo de bom e especial que senti naquela noite. Só pra mim, sem ninguém nem saber que existiu – e sem que nada daquilo pudesse levar alguma cor a mais a mais alguém no mundo.

É que carrego esse pensamento de que pra lá da gente os sentimentos bons também têm uma função. É um primo torto do “a felicidade só é real quando compartilhada”. Lá fora, povoando o mundo, eles têm qualquer possibilidade de inspirar, colorir, dar forças ou esperanças, fazer sorrir, fazer respirar. Que “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Então por que guarda-lo? Por que o ar imóvel da janela fechada no lugar do vento depois da cortina?

Amor também existe em silêncio, é claro. É lindo, gostoso e puro. Mas não se trata de microfonar felicidades a cutucar as não-felicidades do mundo. Trata-se só de querer deixar o amor circular, por acreditar que ele pode ser brisa fresca, água límpida, semente do verde-vivo de mais logo.

Quanto mais a consciência não nos permite esquecer as injustiças, desigualdades e misérias humanas, mais amar parece um ato egoísta, e não revolucionário. Mais o amor parece sem lugar, ou a gente imaturo quando tanto ama. Acho que foi assim que minha torneira começou a secar: de repente o amor já nem parecia bem-vindo; declará-lo era um esvaziamento das complexidades da existência; e querer que ele existisse em linguagem, não só entre dois ou cinco ou dez, mas jogado no céu feito confete, era algum tipo de reafirmação vil ou de inconveniência dispensável.

Acho que amar é primeiro pra gente, sim. Alimento da alma. Mas depois de alimentada e luzidia, a alma quer também abraçar a outra e celebrar a magia da vida.

Foi preciso, portanto, receber uma demonstração de afeto muito da gratuita para que eu me lembrasse disso tudo. Foi preciso que viesse de alguém distante, grisalho e com filho da minha idade, para me contar que o tempo não nos leva isso se não quisermos que isso se vá. Que não há tempo tão curto que não se alargue para fazer caber um hiato de bem.  Que pra um tanto amor possa ser demais; pro outro deva ser mais vivido que falado; pro outro seja ainda uma propaganda falsa daquilo que se quer fingir ser. Provavelmente, é um pouco disso tudo. Mas é também uma porção de impulsos iluminados que percorrem o ser e, de tão vivos, energizantes e encantados, me pedem dar uma volta lá fora – porque qualquer bem pode fazer.

Economizei algumas palavras de afeto, microcelebrações de encontros, manifestações de gratidão e de vida. Não me sinto mais rica. A sombra de que isso possa significar ser adulta, madura, discreta e sensata me ronda; mas a possibilidade de que isso seja apenas deixar murchar uma flor insistente que carrego no peito é mais assustadora.

Amor é adubo, pro meu jardim e pra floresta do mundo. Precisamos de muitas coisas além do amor. Precisamos que ele seja muito menos uma palavra e muito mais uma ação positiva efetiva nas sociedades. Mas precisamos dele – talvez ainda mais em tempos difíceis como esses.

Deixar chover. Deixar molhar. Deixar amar.

As máquinas de fazer criança

gud cortadoFoto: João Paulo Raia Campos

A impressão que dá é que chegamos tarde demais – há quanto tempo o mundo está assim? E quanto tempo seria necessário para mudá-lo?  Tento pensar matematicamente. Para 20 anos* de publicidade infantil assolando a cabeça das crianças, quantos anos são necessários para extirpar o consumismo, a frustração permanente e as bolhas de vazio de dentro delas, que também viraram adultas e criaram outras crianças, que se tornam jovens e adultos e inventam brinquedos, criam campanhas publicitárias, dão aulas e governam cidades?

Me parece que é tarde demais (como se eu tivesse que ter vindo ao mundo em outro trem, cujos trilhos nem ferrugem são mais) porque está já tudo muito bem ajambrado, e como o ovo e a galinha, não se sabe quem veio primeiro, mas tudo se retroalimenta e consolida até parecer que não há outro jeito de ser.

Mas deixa eu dar um exemplo para ver se me faço entender.  Você assiste o documentário brasileiro “A criança é a alma do negócio” (disponível no Netflix) e se surpreende em como aquelas crianças relacionam a felicidade e o bem estar diretamente ao consumo. Não sabem o que é um inhame, uma berinjela, uma beterraba, mas nem gaguejam com o Doritos, o Danone, o Cheetos. Têm no ato de comprar um prazer muito maior do que em brincar, o shopping é mais legal que o parque, e assim por diante. A gente consegue levantar algumas suspeitas sobre como as coisas foram parar aí: pais muito ocupados, que acham em produtos um substituto a jato para o afeto, e aí a publicidade que faz com que uma criança só se sinta aceita se tiver o produto que o colega tem, e aí o colega que realmente tem tudo e gera uma competição… e, de repente, descobrimos todo um sistema que só faz corroborar com tudo isso. De repente, ninguém está parando esse movimento; não, ele só é impulsionado, alimentado, como se fosse assim mesmo que tem que ser.

Comecei a dar aula de inglês para crianças de classe média alta, de forma geral. Ainda no treinamento da escola, a diretora me pede para dar alguns exemplos, e eu digo “Amanhã vou dirigir até Sabará”. Ela diz que, na verdade, achava melhor que eu usasse algo mais próximo à realidade dos alunos…  como dirigir para Nova Iorque. Bem, nas férias de julho, um aluno meu foi para Guarapari, outro para Papagaios, e três para Joinville, por causa do balé. Mas não importa se a criança realmente frequenta os Estados Unidos assiduamente ou se sequer tem planos de ir: legal é que a referência dele seja de lá, e não da cidade ao lado. No livro, encontramos exemplos como “Não preciso dirigir, porque tenho motorista”, e não porque pego ônibus, tenho uma bicicleta ou vou a pé.  Para ensinar uma nova estrutura de frase, os exercícios frequentemente trazem algo que envolvem o pai ter comprado um novo carro, ter que comer menos para ficar mais magro, não ter que cozinhar por ter uma empregada…

Eu sei, é só uma escola, uma escola pequena, são só alguns alunos, são só alguns exemplos. Mas às vezes a vida passa inteira sem sequer um contrasenso. Sem sequer alguém te cutucar para dizer que a vida é possível sem uma empregada, que você não precisa de um motorista quando o ônibus já tem um, ou que comprar coisas novas, afinal de contas, é superestimado. O sistema está implantado, sim, para todo lado. Em cores, promoções, com brilho, barulho, datas comemorativas e outras ilusões. Mas talvez mais cruéis que o macro (cuja mudança, afinal, sabemos ser árdua, longínqua, se é que possível) sejam as microrrelações,  as micropossibilidades de mudança que são tão facilmente descartadas, simplesmente porque já há um outro discurso a ser dito, que nem sabemos se concordamos com ele, mas que é o que vem se dizendo. Fácil, dado, pronto; ao contrário de se tentar sugerir outros modos de ser, estar, pensar, sentir e agir.

Se você tem na vida a oportunidade de colocar uma criança no colo, não me vá repetir tudo o que ela ouve em tantos outros lugares. Fala o contrário, desfala, inventa. Desloca. Um pé pode ser uma minhoca, a Peppa Pig é uma capivara igual tem na Lagoa da Pampulha, eu só tive uma mochila na vida e ela era minha melhor amiga, uma caixa de papelão pode ser o melhor brinquedo do mundo desse domingo. Sabará é legal, Papagaios é demais, não tem problema ser gordinha, mexericas são maravilhosas, menina pode dirigir trator, menino pode usar saia e batom e esmalte, pode colorir banana de azul. Tá tudo bem, gente. É tudo bem ser criança, com ou sem brinquedo, descalço, longe do sofá, do shopping e de todo esse enredo.

 

*número meramente ilustrativo

Saudade-bagagem

532343_416485058394627_2137526859_n

O sentimento de puxar sua mala sabendo que as vidas que ali ficam seguirão o fluxo de suas existências. Fechar a porta com a consciência de que ali continua uma conversa, uma risada. No último sábado, eu era quem ficava, e não quem ia embora. Enquanto a porta se fechava, vi Clarinha dar uma olhada para trás, como quem ainda quisesse compartilhar uma última coisa. Nossos olhos nem se cruzaram e a hesitação durou só um respirar – ela, seu par de botas e de rodinhas seguiram corredor afora.

Me mudei de Pouso Alegre em agosto de 2006, com 14 anos. Coleciono, desde então, uma pilha de despedidas. É curioso que eu não me lembre dos momentos exatos em que encontrava minhas amigas pela primeira vez, mas consiga reconstituir com nitidez muitos dos nossos tchaus – que se transformavam em contagens regressivas nos instantes seguintes.

Chovia e eu olhava com bochechas molhadas pela janela do ônibus que deixava a rodoviária; eu entrava no Ford Ka preto da Olívia deixando abraços que eu não queria largar na calçada; meus pais me buscavam na casa da Una e eu sentava a contragosto no banco de trás.

Durante os nossos fins de semana, férias e feriados juntas, eu sempre me incomodava quando ouvia eventuais planos para “a semana que vem” – aquela, em que eu já não estaria ali. Eu voltava e uma já tinha tirado carteira de motorista, a caçula perdia a virgindade, o filho de outra nascia e crescia – tudo sem que eu pudesse estar.

Mas o tempo rei ensina e, o que antes era dor, agora me parece a maior das belezas. Eu vou, sabendo que volto. Eu fico, sabendo que acaba. O correr do relógio ainda me incomoda, que tanta pressa não precisava ter. Mas o amor gigante, seguro e maduro que ocupa cada espaço entre os ponteiros dispensa a ansiedade e enche de completude aquele recorte de tempo e espaço em que nos encontramos e juntas estamos.

Sei que na minha próxima visita o Henrique vai ter voltado a não me conhecer, alguém vai ter mudado de emprego e alguém de ideia sobre outro alguém. Mas não há [mais] problema. Vou jogar o Henrique para cima até que ele me goste como se fosse a primeira vez e as horas vão nos abraçar enquanto trabalhos, famílias, namoros, paqueras, estórias, medos e sonhos são compartilhados. Vai ser delicioso e real. Depois eu volto pra casa. Todas as vidas seguem, em suas rotinas e em imprevisibilidades. Até que, de novo, eu volto praquela outra casa – que é o colo delas.

Clarinha, bem-vinda ao clube. De quem deixa pedaços do coração para trás a cada passagem de volta; mas de quem tem também o privilégio de ter corações sorrindo a sua espera, a cada passagem de ida. {o meu já ensaia a alegria de te rever pelo resto da vida}

quantos filmes sobre natal existem e por quê não estamos falando mal deles

DSCF0176-001

a praça da liberdade tinha algo de alienígena com a noite e com todas as luzes. eu não tinha cachorro nem filho nem idoso pra desfilar. eu não tinha par. na ida, ainda era dia e consegui desviar – dos sorrisos, das fezes, dos brinquedos, da água, de ser atropelada pelo carrinho de pipoca ou de bebê ou pelo trenzinho. à noite, num segundo pensar, a alienígena era eu. não se deve fumar na frente das crianças. não se deve dar esse desgosto aos mais velhos. não se deve correr assim em tempos de férias. não se deve fumar.

uma faixa de pedestre e informações demais ao meu redor. família, natal, ano novo, cachorro quente, bumerangue de laser. só mais uma faixa de pedestre e eu estaria livre.

“você tá esperando alguém?”, ela perguntou. “não”, respondi. “e você?”, eu deveria ter perguntado. “não se deve ser assim tão sozinha”, ela deve ter pensado.

“moça, é que faz muito tempo que eu não fico sozinha, sem primo, sem coca-cola, sem cloro, sabe? e eu só tô gostando”, eu quis falar. mas enchi a boca de rúcula e brie e mate e brownie. e a cabeça de pensar. será que eu e minhas amigas nos encontraremos na meia idade no cinema num domingo de fim de ano? será que eu vou ser a única sem plástica? a gente vai ter bom humor? ou bom humor-forçado? uma delas inventava uma história para me justificar. “ela deve morar sozinha e acabou de chegar de viagem. de certo visitava os pais”.

a moça ao lado continuava querendo conversar. tomou sua primeira budweiser. 5,5% de álcool, me contou.

não se deve fumar.

Juventude bundona e feliz

juventude

Começou quando eu me mudei para BH para fazer faculdade, há pouco mais de quatro anos. Novata como eu estava acostumada a ser desde que me sou, cheguei à universidade e à cidade com olhos de nunca. Tudo era novo – mas nem para todo mundo.

Nas primeiras aulas, intervalos, bares e calouradas, descobri que um punhado de gente ali já se conhecia. De festas da própria faculdade (mas como, se antes estavam no colégio ou no cursinho?), da escola, do inglês, do bairro, do primo. Alguém já sabia se o João era gay, quem a Maria tinha namorado e para onde foi o intercâmbio da Joana. Uma galera já tinha pelo menos se esbarrado na vida. Dividindo um beijo triplo, um shot ou um baseado.

Foi por aí que eu criei para mim mesma o conceito da ‘juventude belorizontina’, que comecei a usar para os meus amigos que tomaram porre na Mary in Hell, fumaram no banheiro de algum colégio dentro do contorno da Contorno, foram emo, punk ou bi por alguma esquina da Savassi. Existem mais variações das pessoas que assim rotulei: gente que fazia a trilha da Serra do Curral pelo cano, antes da gourmetização da prefeitura; gente que, com 15 anos, rodava Belo Horizonte de bike & feliz; gente que já vivia a cidade que hoje sinto que é minha também quando eu nem sonhava que um dia eu e alguma cidade íamos nos pertencer assim.

E então eu comparo essas juventudes com a minha. Na oitava série, o colégio em que eu estudava faliu e eu cursei todo o ensino médio com uma turma que variava entre 20 e 25 alunos. O nosso programa supremo do fim de semana era ir ao cinema (assistir um blockbuster, nada de belas artes) e emendar na feirinha da lagoa-praça, comendo pastel, hambúrguer, churros e bombom. Passávamos as tardes juntos, uns nas casas dos outros, nadando, jogando bola, sinuca e baralho. A gente comprava uma pizza muito barata que deixava a boca cheia de farinha branca. A gente comprava era muita pizza e refrigerante, pro bando todo encher a pança.

A aventura era alugar uma van para irmos passar o dia em BH, para jogar boliche, ir em um show do Forfun ou do Simple Plan. A Mostra de Profissões da UFMG era um grande evento – pra gente ficar abismado com o tamanho daquele campus e ele parecer um mundo e os mais guerreiros caminharem da Praça de Serviços até a Catalão por um Big Mac. Por uma casquinha que a nossa cidade não tinha.

Houve a fase da festinha-fechada-com-alguma-coisa-com-vodka-liberada. Acho que foi quando a gente percebeu que queria paquerar, mas que na nossa turma seríamos sempre só melhores amigos. Originamos alguns casais, no entanto – e alguns de nós nos revezamos entre a gente, tudo entre família, sabe. Eu e as meninas da turma tatuamos um coração no pulso direito. A gente ainda fica extremamente em casa quando juntas.

O álcool não foi necessário nessa minha juventude. Antes, aos 14 anos, em Pouso Alegre, a bebida parecia mais importante do que depois, até os 17, em Sete Lagoas. Eu vi maconha pela primeira vez na faculdade. Fui aprender a diferença entre o cheiro de maconha e de cigarro de palha lá pelas tantas. Fumei meu primeiro cigarro de palha no terceiro ano de faculdade – depois de terminar o namoro que tantos beijos deve ter me dado com a farinha branca da pizza barata na boca.

Alguns de nós passamos na mesma universidade e tomamos umas boas cervejas nos últimos anos. A cerveja, é verdade, foi incluída na turma como uma amiga querida. Experimentamos maconha, experimentamos outras coisas além de maconha, perdemos a virgindade, perdemos a vergonha, perdemos a memória, perdemos ingenuidade, moral e bons costumes, amém. Mas, por mais que não haja nessa vida um jeito mais ou menos certo de ser & caminhar, eu sinto que foi tudo a seu tempo. Ser bocó junto quando era tempo de ser bocó junto. Descobrir e viver outros mundos quando assim o vento do tempo soprasse na gente.

Temos viajado para outras cidades para nos vermos. Percebemos o quanto todos nós mudamos. De país, de curso, de ideia. De posicionamento, visão de mundo. De manequim, de corte de cabelo, de jeito, de gosto. Engravidamos, separamos, achamos que não íamos mais ser amigos. Acaba que fomos. De alguma forma, seguimos. A gente perdeu toda uma juventude transviada, com tudo que isso tem de potente e transformador. Mas a gente não se perdeu da gente. Que bom.

O seco e a água, dentro da gente

sertao

Venho do “sul do Brasil”, trago pele pouco curtida pelo Sol e nunca tinha comido carne de bode. Mas trago a Bahia no nome, tenho sede nas pernas e as prosas me param. Foi quando, ainda no segundo dia de viagem pelo sertão, recitaram Guimarães Rosa dizendo que perto da água tudo é feliz. E me lembrei do que sou na água – como sou inteira, viva, pulsante, real, serena e feliz. No quarto dia, falaram de como os pássaros cantam mais alegres depois da chuva, e o boi corre abestado e a bênção da água é comemorada em unidade, em comum. Lembrei de que aprendi com minha irmã a dançar na chuva, de que durmo melhor na chuva, e de que, mesmo adulta, paro para me embasbacar com a magia da água se jogando do céu.

Não importa de onde se vem [ou para onde se vai], quando se traz o sertão consigo.

Pequeno manifesto sobre a expressão ‘ex-mulher’

muie

Ex-mulher assassina, ex-mulher é assassinada, ex-mulher surta, ex-mulher salva. Ex-homem nunca nada. Em lugar nenhum.

Em uma busca rápida no meu Google, os três primeiros resultados para ‘ex-mulher’ são: ‘ex-mulher do cantor sertanejo hudson morre baleada em limeira’, ‘ex-mulher de renato aragão’ e ‘ex-mulher de romário danielle favatto’. Para ex-homem, são: ‘ex-homem mais gordo do mundo emagrece e encontra a pessoa amada veja essa evolução’ [ipsis litteris, juro], ‘ex homem mais gordo do mundo’ e ‘ex homem aranha’. A mulher sempre em relação ao homem. O homem sempre em relação a si mesmo.

O homem não é menos homem quando se divorcia. Muito menos deixa de ser homem [talvez se torne até mais, solteiro, varão, poderoso nesse mundão!]. Ele deixa só de ser marido, ou esposo, de vez em quando.

A gente vira ex-mulher porque perde a função social. Se viemos ao mundo para ser costela-passarela, casar-copular-reproduzir-sorrir – o que somos quando o ciclo se rompe?

Eu queria lembrar – bom dia! – que ex-mulher é o caralho [não é a sua mãe nem a sua ex-tia]. Somos ex-esposas, ex-companheiras, ex-maridas, ex-parceiras. Tão mulheres antes quanto durante quanto depois. Nunca menos por deixar de estar casada. Jamais ex pela ruptura de um laço, de um amor, de um papel ou de uma amarra.

Com o monte de fé que carrego na vida, acredito que a gente é sempre mais. Mais humano, mais atento, na caminhada de sempre. Não desejo a ninguém ficar menos gente, assim, de um dia para o outro. De uma assinatura para outra. Não sejam ex-homens, sejam sempre mais homens. E pensem[os] oito vezes antes de deixar a linguagem subjugar a integridade e a identidade de uma mulher.