Meu museu de estreias mínimas

Primeira vez em Buenos Aires

Primeira vez em Buenos Aires

*Texto escrito em 18/12/2013

Foi logo depois da primeira vez que terminei de verdade meu primeiro namoro de verdade que eu me viciei em primeiras vezes. Li o mundo através de todas as possíveis inaugurações e estreias que ele me apresentava. Em poucos dias vislumbrei meu primeiro acervo, que não incluía plantar uma árvore, escrever um livro ou ter um filho – eu comemorei ter ido a um cinema de rua, bebido no prédio mais antigo da cidade e ido a uma casa de festas que sempre quis conhecer. Eu sabia que tudo era despretensioso e pequeno e só tinha o significado que tinha dentro de mim – e talvez por isso fosse tão grande e saboroso.

Desde então, virou hábito. ‘Qual foi a última vez que você fez alguma coisa pela primeira vez’ pode ser um slogan publicitário barato, mas também um mote de vida, me ajudando a desenhar terças e domingos e sábados-feiras. Colore as dúvidas sobre restaurantes, roupas, projetos. É com um prazer imenso e, ao mesmo tempo, muito singelo, que eu destôo os horários que acordo, durmo, almoço, saio e volto do trabalho; e os caminhos que faço e o transporte que uso e o que quero fazer à noite e o que não quero fazer mais. Um novo sabor de suco e uma nova viagem, um novo bairro e um novo jeito de prender o cabelo, a música que eu nunca tinha ouvido e o pensamento que nunca tinha me ocorrido – é sempre com uma alegria orgânica que eu os abraço para dentro de mim.

Eu devia ter vergonha de não só carregar isso como mochila permanente, mas ainda querer escancarar minhas pequenices na parede do quarto, ocupando lugar concreto no mundo. Mas encaro cada miudeza com orgulho de mãe e só torço para que sejamos infinitos enquanto duremos – eu e minha [primeira] coleção de pequenas grandiosas premières solitárias.

No meu primeiro abuso,

Na 1ª vez, eu só corri. Demorou os segundos de entender, e então a fuga das pernas. Nada em palavras. Nem naquele momento nem nunca depois. Eu tinha 8 anos.

Ele era atendente da locadora onde fui alugar uma fita. Eu tinha acabado de assistir “Spirit: o corcel indomável” e ansiava por outra animação. Ele disse que ia me mostrar um filme que eu ia gostar. Tocou meus peitos de criança, e tudo que fiz foi correr. Sem parar.

Na 2ª vez, depois dos minutos de entender, eu tentei fugir. Ele me segurou com força. Apertava meu peito de criança. Eu tinha 11 anos. Consegui chutar minha bicicleta, que ele segurava, com força para cima dele. E corri. Mas, daquela vez, só até a esquina. Minha bicicleta tinha ficado com ele e eu não estava disposta a deixá-la. Parei em frente à farmácia e o encarei com os olhos. Quando ele ameaçava vir em minha direção, eu entrava na farmácia. Em dado momento ele foi embora. Entrei na farmácia e pedi a uma moça que me olhasse enquanto eu buscava minha bicicleta, que estava na rua de trás, porque eu estava com medo. Ela olhou por mim.

Assédio é crime

Ele não era um desconhecido: era um aluno mais velho do colégio no qual eu estudava, e tive que suportar a existência do seu rosto ainda por anos.

Na faculdade, relatos tóxicos, abusivos e criminosos sobre o mesmo rapaz. Não um rapaz sem amigos, esquecido, a passar batido – pelo contrário. Um sempre rodeado de sorridentes rostos, cheio de histórias, causando constante riso, admiração e conivência dos bróders, e, obviamente, o desejo e a ruína de mulheres desavisadas. De repente descobri o estupro que posso ter sofrido sem saber. Eu apaguei ao lado de um abusador. Meses para me permitir cogitar que, sim, eu posso ter sofrido o que não sei naquela noite.

Recentemente tive que cumprimentar um ex-assediador virtual. Não se chamava assim na época. Eu tinha no máximo 13 anos. Ele é 10 anos mais velho que eu. Me assediava por todos os meios virtuais de então (principalmente MSN), embora eu reiteradamente dissesse que não queria ficar com ele. Uma história comum. Um cara a encher o saco de uma criança/jovem/adulta por mais de ano. Eu achava chato, mas não entendia o tamanho da inadequação daquilo. Anos para entender. Quando o vi, depois de década, um leve enjoo acenou por dentro. Ele se apresentou para mim: “Prazer, Fulano”. Aparentemente, não dá para decorar todas as vítimas que se faz.

 

O tempo de entender. O tempo de assimilar. O tempo de não se odiar por aquilo. O tempo de não querer morrer ou matar. O tempo de entender quem se era, e quais eram as reações possíveis para aquela Camila, naquela idade, naquele contexto, naquele dia. O tempo de conseguir falar.

Quando uma mulher fala, temos acesso a um pedaço da ponta do iceberg que ela, não sem custo, resolve deixar derivar. Abaixo da água, todas as vezes em que não dissemos, em que calamos resignadas. Todos os microassédios a cristalizar formando colônias, corais. Todos os assédios sofridos por todas as mulheres ao nosso redor. Todas as vezes em que sozinhas corremos. antes que qualquer palavra pudesse nos alcançar.

Quando uma mulher fala, podemos nos lembrar que não estamos sozinhas. Não aconteceu com você porque você deu azar, porque se vestia assim, se comportava assado, porque não devia estar fazendo aquilo. Aconteceu porque homens abusam de crianças, de jovens e de adultas. Abusam de nós, das nossas amigas e da nossa família.

Quando uma mulher fala, as palavras venceram algumas corridas internas para chegarem até a boca – e até o texto. É a voz de nós todas. 24 anos para eu conseguir falar.

Impressões sobre a maternidade por uma não-mãe

Mushake, República Democrática do Congo | 2015

Aldeia de Mushake, República Democrática do Congo, 2015 

 

Sou uma bela tia e venho notando sistematicamente o mundo a se comportar em volta do dueto mãe-bebê. Colhi algumas observações, que compartilho com vocês:

Você tem uma guarda compartilhada com o mundo

O pai da criança pode ser ausente, você pode estar se sentindo sozinha, mas basta colocar os pés na rua para uma legião de pessoas darem palpite sobre seu bebê. Aquela senhora que acaba de passar 12 segundos em frente a sua cria sabe muito mais sobre ela, com certeza! E se preocupa mais, afinal, esse frio de 28º e sua menina sem blusa? Esse calor de rachar e você com ela na rua? Convenhamos, os passantes tem muito a colaborar. São como monges budistas, prontos para te salvar da escuridão com uma sábia frase ao cruzar com você na calçada – embora você só estivesse indo à padaria. Acho que é um direito estabelecido, inclusive. Não precisa nunca ter sido mãe, nunca ter segurado um bebê, ou nem ter olhado direito na cara da progenitora: você tem direito a dar sua opinião sobre a roupa, a saúde, o humor e os cuidados com qualquer bebê que te apareça.

Em muitas tribos indígenas a criação dos novos seres humanos é compartilhada por toda a comunidade. O leite é mamado nos seios que tem leite; princípios, valores e tradições são vividos em conjunto, o que basta para a aprendizagem; as crianças são responsabilidade e continuidade do todo – assim como da natureza.

Nossa sociedade exerce o conceito de ‘comum’ em momentos muito específicos e raros para merecer ser comparada a uma tribo indígena. Passamos a vida de forma egoísta, centrados majoritariamente em nós mesmos e nos esforçando em estender a benevolência ao núcleo familiar. O que vejo nessas intervenções repentinas, por vezes invasivas e quase sempre desnecessárias é mais uma diminuição daquela mulher – invariavelmente – que está ali, cuidando de um bebê. A impressão que fica é que todo cuidado sempre vai ser pouco. Não basta o chapéu, o protetor solar, a meia, o maiô de paetê, a fantasia de Teletubby. Está sempre faltando algo, querida mãe, então vou te dar uma mãozinha.

Mas Camila, as pessoas são fofas, elas estão preocupadas, são tiazonas cheias de amor… tudo bem. Nunca vi minha irmã (a mãe em questão) dar nenhuma má resposta a elas. Imagina que bafo? Uma mãe não aceitar um palpite que nunca pediu! Ficar irritada só porque alguém falou para ela que “o sol está forte”, enquanto ela está embaixo deste exato mesmo sol.

Eu gostaria de retrucar todas, empurrar umas, explodir a cabeça de outras. Talvez exista mesmo um senso de carinho nessa preocupação coletiva e constante, como se um bebê fosse mesmo de todos nós, e por isso queremos todos colaborar para um crescimento saudável e feliz. Mas as pessoas fazem isso e depois dão maus exemplos rua afora. Então, querido mundo, sugiro guardar seu palpite para quando ele realmente puder ser aproveitado.

Você é problema de todos 

Você é uma adulta formada, faz suas escolhas, vive sua vida. Mas agora você é mãe e, de alguma forma, parece que a população tem direito a dar conselhos não-solicitados sobre seu viver. Ninguém quer pagar seus boletos, mas de repente todo mundo se preocupa com sua saúde, suas atividades, tudo o que você faz, come e deixa de comer. É assunto se você bebe ou não, se fuma ou não, se engorda, emagrece, pinta o cabelo, faz pilates, dorme tarde, fica no computador ou sai para se divertir (a lista não tem fim). Você ganha um exército de falsas mães (porque a deusa ajude que sua mãe real esteja fora desse júri), confeccionando suaves relatórios de inspeção ao vivo.

Mas não se preocupe, porque a preocupação também é seletiva. Se você tomar um copo de cerveja, pre-pa-ra, tudo pode acontecer: pequenos gritos, alguém cair de uma cadeira, queixo caído, olhares atravessados, pressão baixa, o mundo ameaça acabar. Mas se você apenas não estiver feliz, talvez ninguém perceba nem pergunte nada a respeito e a barra estará limpa.

O seu bebê é um corrimão

Já deu para entender que não sou exatamente a pessoa mais tolerante que você conhece. Para alguém com temperamento sereno pode ser que tudo isso passe despercebido. A percepção das mães provavelmente é outra – e eu estou aqui a observar.

Observar os sorrisos que um bebê desperta quando passa pela rua. O tanto de luz que vai se acendendo no caminho. É uma sorte de milagre ver quanto amor aquele bebê recebe e emana, só por existir. As pessoas estão sempre prontas para elogios, para se derreter, se desarmar, se abrir em júbilo ao mais despretensioso gesto e som. É lindo e é divino, eu não tenho dúvidas. Por vezes um elogio é seguido de um “que Deus abençoe”, que eu aprendi a achar muito delicado e gentil, pois enche aquela troca de boas intenções e energias.

E às vezes as pessoas tocam os bebês, o que é quase irresistível, lembrando que estamos falando de pezinhos que parecem fofas bisnaguinhas. Existe uma ordem lógica: se aproximar da mãe e do bebê, trocar algumas palavras, abaixar para alcançar a altura da criança, tocar o pezinho, tudo bem, por quê não?

Mas existe quem só chegue do nada e meta a mão na cabeça da criança. Você fica só com o rastro de umas unhas longas bem feitas pintadas de roxo. Uma mão peluda com um relógio prateado. Já foi e vocês nem viram – o bebê acaba de levantar os olhos, tardiamente, à procura de quem fez o afago-relâmpago. Não sei vocês, mas eu não saio colocando a mão nas pessoas por aí. Se você me conhecer e chegar de forma estranha ao topo da minha cabeça, eu vou te dar a real: DON’T TOUCH MY CHAKRA. Qualé, gente? Vocês acreditam no que quiserem, eu também, mas calma lá com essa mão no auge do meu corpo físico, na casa dos meus pensamentos, onde dançam umas luzes coloridas sim. Fico pensando se para um bebê, aprendiz de ser, um toque desses não possa parecer um quase tapa, que não anuncia a chegada e ainda chacoalha as ideias.

As pessoas podem ser gentis e luminosas

Chega de amargura, afinal sou tia da maior fonte de luz que já testemunhei. Por onde Amelie passa, a vida faz sentido: ela é simples e feliz por natureza. Amelie coleciona palavras afetuosas, sorrisos verdadeiramente espontâneos e fagulhas de brilho de quem já poderia ter esquecido como reluzir. Nós vamos pegando todo o bem do caminho, rebarbas coloridas da sorte de testemunhar seres puros pelo mundo.

E quando minha irmã viaja de avião com uma bebê, um carrinho, uma cadeirinha, duas malas e uma bolsa, há quem estenda a mão para ajudar de verdade. Uma senhora que quer emprestar o celular, chamar o táxi, empurrar a bagagem. Quem tenha empatia real e perceba que ela precisa de ajuda para poder fazer um xixi, um despacho ou amarrar o cabelo. Aqui e ali, portas se abrem sozinhas, assentos esvaziam, alguma preferência é dada.

Estatisticamente, não sei se o mundo está mais preocupado em ajudar as mães ou em apenas encher o raio do saco delas. Na dúvida, estenda a mão com verdade e humildade, e mal não fará.

BH tem metrô sim

fullsizerender

Mudei para BH em 2010 e dei as mãos ao maior dos companheiros: o Google. Eu não sabia a diferença entre Nova Lima e Venda Nova, se a UFMG era perto do Barreiro e não fazia a menor ideia de como chegar na Praça do Papa. Nos tornamos, então, inseparáveis.

Certo dia, novatíssima no bairro Dona Clara, fui convidada para ir ao Boulevard Shopping. Meu amigoogle mandou a letra: caminhada até a estação de metrô 1º de maio – sentido Eldorado – descer na estação Santa Efigênia. Atravessar o rio Arrudas (o querido não especificava como, mas eu imaginava que entre passarela e barco a remo, algum meio haveria). Nóis.

Decoradas as viradas à esquerda e à direita, cheguei em uma rua de terra. Era noite. Caminhei rápido. “Vamos juntas?” ainda não era um movimento/página no Facebook, mas eu já não era besta e me aproximei de uma senhora que por ali também passava. Ela se assustou com meu movimento, eu sorri bege e puxei papo: “aqui é perigoso, moça?”. Passávamos por cima de um córrego (filho do Ribeirão do Onça, hoje sei), água cheia e turva. “Já vi puxarem bolsa de mulher, bater em mulher, diz que jogam corpo nesse pedaço de rio” – foi a resposta que arrepiou os cabelos da noite.

Lá fui eu. Em frente. Depois naquela caralha de passarela alta da estação Santa Efigênia, os carros passando velozes na Andradas, contrários aos colchões felpudos que eu preferia ter sob meus passos. Fui naquela e em mais muitas vezes.

A 1º de maio continua sendo grande amiga, a rua de terra foi asfaltada, agora tem supermercado na esquina, nunca ouvi-vi caso de violência por ali. Fiz estágios nos bairros Floresta e Santa Inês, usando as estações Central e Santa Inês todos os dias. Visitei tio pela estação Horto, peguei carona na PUC pela Gameleira, ocupei a Câmara pela Santa Tereza, trabalhei pela Calafate, manifestei pela Lagoinha, doei sangue pela Vilarinho, passei o domingo com a família depois de descer no Eldorado e fiz compras de Natal no Minas Shopping.

Ouço, no entanto, desde os tempos de faculdade, pérolas sobre o metrô. Lembro quando contei numa roda que havia ido nãoseionde com ele. Um colega, belorizontino, escola particular, zona sul (nada contra, até tenho amigos que são), me disse: “SÉRIO? Mas não é perigoso?” Eu nem soube responder.

E então @s amig@s e colegas dizendo que não existe metrô em BH. “Ah, porque não é metrô, é trem” – bem, eu falo “aprochegar” e “desbeiçado”, então não me importo exatamente com nomenclaturas. Seguimos. “Tem poucas linhas e não atende e {insira aqui palavras educadamente revoltadas} e lkajsanwawbnab e (…) e SAVASSI”. A gente sempre chega na Savassi. Não tem metrô porque não tem metrô – na Savassi.

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Ele não só existe como foi visto arrasany no CarnaBelô 2015. Foto: Vinícius Rezende

Se eu estou defendendo o sistema tosco, júnior e insuficiente de trens urbanos de BH/Contagem? Definitivamente não. Sabemos que nosso transporte público maltrata @s trabalhador@s e que um metrô decente poderia nos poupar dos combos de passagem cara & ônibus lotado que demora para chegar no ponto e para chegar em casa. Sabemos que existe uma máfia que nos mantêm enlatados, cansados e pagantes. Mas se BH não tem metrô, eu e uma parte da população andamos surfando numa viagem cósmica maluca nos últimos 6 anos.

Segundo dados da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos), o metrô de BH (ou como queiram chamar) atende 210 mil passageir@s/dia. De acordo com o último censo do IBGE (2010), a capital mineira possui 1,433 milhão de habitantes, o que significa que o trem atenderia 14,65% da população diariamente. Se somarmos a população de Contagem (380 mil pessoas), que é atendida nas estações Cidade Industrial e Eldorado, a porcentagem cai para 11,6%. É muito pouco, realmente. A rede metroferroviária de SP (Metrô, CPTM e ViaQuatro) transporta cerca de 7,5 milhões de pessoas por dia, o que significa 66,3% da população da cidade de São Paulo e 35,38% de toda a Grande São Paulo (que soma 39 municípios).

Acredito, portanto, que a questão que levanto neste texto seja muito mais simbólica que de cunho prático. Sob o prisma da mobilidade urbana talvez atender 11,6% de uma população equivalha a não existir. Mas agora convido quem me lê a uma ficção científica: e se, no lugar de Eldorado-Vilarinho, o metrô fizesse Centro-Jardim Canadá?

Mantemos a Estação Central, que é pra ninguém perder o prumo. Dali, o metrô sobe Bahia, para lá pelo Maletta. Praça da Liberdade. Um pulo no Lourdes. Praça da Savassi. Pátio Savassi. Entra para o Sion, ali pelo Colégio Santa Doroteia. Vai ao Cruzeiro, shopping Plaza Anchieta. Toca para o BH Shopping. Dá uma moral no Belvs. Parada na Torre de Nova Lima. Finaliza no Jardim Canadá, ali perto do Verdemar. Este trajeto equivale em distância ao percurso Eldorado-Vilarinho (cerca de 30km). Levaria trabalhador@s e estudantes também, mas em outras áreas da cidade – onde os privilégios, por acaso, têm mais casa. E aí? Será que ainda assim “não teríamos metrô”?  

Já me contra-argumentaram que, bem, se o metrô de Belo Horizonte não chega na Pampulha, mais famoso complexo turístico da cidade, ele é falho e ponto. Divinha? A estação 1º de maio é vizinha do bairro Dona Clara que, oficialmente, é da regional Pampulha. O metrô tem estação nas zonas norte, oeste, leste, noroeste, nordeste e central. Leva às duas rodoviárias da cidade, à área hospitalar, a universidades como PUC São Gabriel, PUC Coração Eucarístico, Una e CEFET. Vai até uma das cidades da Região Metropolitana pelo mesmo preço (barato) com que roda dentro da capital. Conecta o centro ao extremo norte da cidade. Seu erro maior, no entanto, me parece ser não dar as caras pela zona sul.

Belo Horizonte merece investimentos reais nas linhas de metrô e no transporte público como um todo. Se mover pela cidade de forma eficiente e humana urge. Do Oiapoque à rua Jacuí; passando por todas as zonas, pela Last e também pela Sul – sim, por favor. Só convoco a rapeize belorizontina para o importante deslocamento para o discurso de + metrô, e não só + metrô-para-mim. 😉

Um jogo para recordar

Foto: Mariana Bazo/Reuters

Foto: Mariana Bazo/Reuters

 

Acho que um bom consenso de partida inesquecível entre o povo brasileiro é a derrota de 7×1 da seleção brasileira para a alemã na Copa do Mundo de 2014. Eu também bem lembro dela. Mas tenho a forte impressão de que vou levar adiante na memória o jogo de futebol feminino entre Brasil e Austrália nas quartas de final das Olimpíadas 2016. Resultado final: 0x0, nenhuma goleada, sem valer medalha, nada que entre no Guinness. Só algo que bateu firme aqui dentro.

Eu já ouvia falar sobre nossa seleção feminina há um tempo. Era só ver um post com a foto de Marta e eu curtia. Mas naquele dia fui de fato assistir ao jogo, interessada nos passes, chutes e contra-ataques como eu não me lembro de já ter estado.

Comecei a atravessar a importante ponte entre o saber e o sentir. Entre a priori e posteriori. Acredito profundamente que representatividade importa, mas naquele jogo isso passou de uma frase a uma sensação percorrendo todo meu corpo.

O jogo estava emocionante por si só; era necessário vencer para seguir para as semi finais e ter chance de medalha. Zero a zero, prorrogação. Eu não estava vendo fulanos correndo feito bobos num campo de futebol. Eu via amigas, sentia todo o esforço delas, vibrava em cada movimento e torcia para que aqueles corações apertados se desamarrassem em alegria.

Fomos para os pênaltis. Eu não queria que elas errassem, não por não querer que o Brasil perdesse; mas eu não queria essa tristeza nelas. Tentava imaginar os tantos corres na vida de cada uma para que tivessem chegado até ali. Tanta gente colocando areia no sonho, tanto descrédito, tanta encheção. E tanta persistência.

Chloe Logarzo, jogadora australiana, acertou o pênalti e comemorou fazendo o símbolo de uma pepeca com as mãos. Meu namorado falou: ó, sapatão. Eu discordei: talvez nem seja. Sim, era. É. Mas na hora o símbolo de uma vagina representava muito mais para mim do que a orientação sexual da atleta. Era autoafirmação e resistência. Era gritar muda e com a cara séria: AQUI É MULHER, MUNDO! Mulher correndo, suando, lutando e metendo gol.

PPK PWR

PPK PWR

Embora ser mulher não se resuma a ter vagina, e tantas mulheres sejam mulheres sem a possuir, naquele momento reinou a pepeca no Maracanã lotado – e, na raridade das raridades, não para o bel prazer dos homens. Cooptando o gesto dela para tudo que pensei e senti, ali ela vibrou acima da diferença de times/países – éramos todas xoxotas fazedoras de gols, ousando ocupar com brilhantismo e garra um território em que tradicionalmente éramos apenas parte da decoração.

Tudo se fez entender dentro de mim com os pênaltis acertados pelas brasileiras. Respiração em suspenso. Bola na rede. Quando elas davam um soco no ar, quando gritavam, quando eram tomadas pelas tantas descargas de felicidade e realização corpo afora, eu pensava: podia ser eu! Imagina que loucura sentir isso tudo. Elas são mulheres como eu. E estão sentindo isso tudo! É real, é possível. É maravilhoso. E elas estão lá.

Do banco da equipe técnica, também lembro de ter ficado tocada pela comemoração de uma moça de cabelo liso, preto, comprido e amarrado num rabo de cavalo. Não sei o nome nem nada, mas a câmera sempre dava uma volta por ela no momento da comemoração. Ela gritava com todas as cordas, abaixava um dos joelhos e erguia o punho no ar seguidas vezes, com força e rigidez. O terreno do esporte era nosso. Seu êxtase, seu brio. Toda sua vibração e catarse. Ali, uma torcedora festiva não figurava apenas uma enfeite, como em tantos jogos masculinos a câmera faz parecer – o lugar e a vitória eram também dela.

Assim, Marta passou de um rosto na minha timeline a uma atleta a qual pude acompanhar. De Bárbara, eu só havia visto uma reportagem no Globo Esporte que destacava a beleza de seus olhos verdes. Eu a vi defender um pênalti decisivo e nossos santos estiveram juntos na proteção. Formiga é agora inspiração e força para enfrentar a sociedade que nos quer descartáveis, inúteis e nulas a partir de uma certa idade – bem nova, diga-se de passagem. Debinha, Andressa Alves, Andressinha, Tamires, Poliana, Fabiana, Mônica, Rafaelle, são agora pessoas queridas, que eu gosto de imaginar sentadas em uma mesa de bar re-contando as partidas, falando alto, rindo largo, livres, elas.

A minha trajetória – que bom – já havia me ensinado que representatividade importa, sim. Que importam Lea T., MC Soffia e Karol Conka. Essa partida veio, no entanto, para reforçar o ensinamento pelos poros, pulsos e olhos. Me sacudiu com o elétrico e poderosíssimo pensamento de que poderia ser eu lá.

Representatividade inspira, faz sonhar e projetar. Faz crer que é possível. Sendo possível, lá chegaremos. Obrigada, time. Eu jamais as esquecerei.

Água e cabeça erguida

Urubus no céu, em Crato - CE

Urubus no céu, em Crato – CE

Em 2014 trabalhei indiretamente para a campanha da Dilma nos quatro meses que precederam o primeiro turno. Trabalhei madrugadas, domingos e feriados. Seis dias por semana, com turnos que variavam entre 6 e chegaram a até 12 horas. Engordei uns bons quilos. Comia comida processada loucamente, madrugada adentro. Eu não tinha hora para dormir, mas sempre tinha para acordar. Um dia dirigia de volta para casa às 8h da manhã. Passei pela praça Raul Soares, vi as pessoas se preparando para o dia que começava. Chorei em silêncio.

Minha vida não tinha rotina, nem um ritmo saudável. Eu não fazia nenhum exercício físico e sequer lembrava que isso existia. Os amigos que encontrava eram os fiéis e queridos que aguentavam meus turnos estranhos. Um deles também estava sempre de plantão no jornal em que trabalhava, então vez ou outra uma cerveja casava. Minha irmã estava morando na minha casa, com meu sobrinho que acabava de nascer.  Bati pé no trabalho para acompanhar as 20 horas de trabalho de parto. Mas os dias seguintes foram da costumeira ausência: não troquei fralda, não dei banho, não sabia da dor de barriga ou do sono ou do riso. Não o entendia. Ou eu não estava presente, ou estava cansada demais para realmente participar de forma ativa de algo.

Fiz bons amigos e amigas, claro. Nos apoiávamos uns nos outros. Respiro, trocas, risos. Acho que a capacidade de rir e fazer rir e rir de novo salvou nossa sanidade. Era o que tínhamos, afinal.

Encarei esse trabalho porque quis, porque aceitei o desafio. Mas também porque eu acreditava muito nele. Ao monitorar o que as redes sociais falavam sobre Dilma, encontrávamos comentários machistas e misóginos diariamente. Piadas e memes cruéis, horríveis. Boatos infundados, difamação pura, a maldade materializada virtualmente.

Sabíamos que trabalhávamos para alguém que deveria estar cansada. Que era atacada por todos os lados, todos os dias. Pela oposição, sempre, mas por vezes também pelo próprio partido, por ser tão firme. Tão honesta. Tão certa de si (pode, afinal, uma mulher ser determinada e ter suas próprias convicções e modos de operar?).

Dilma ganhou o primeiro turno, eu larguei o trabalho, fiz as malas e fui rodar um filme no sertão nordestino. A campanha não havia acabado – nem para ela nem para mim. Nas conversas cotidianas com os sertanejos, eu nem precisava assuntar, o Governo logo era tema. Fosse pelo Brasil Alfabetizado, pelo Água para Todos, pelo Bolsa Família, pelo Brasil Sorridente, pelo Mais Médicos, ou só pelo Lula mesmo. Sua foto na parede de um restaurante em Monte Santo, na Bahia, onde comi bode pela primeira vez. Seu nome na boca das pessoas de todos os sete Estados que percorremos.

Monte Santo - BA

Em Monte Santo – BA

Era um prazer – talvez um dos maiores que tive e terei na minha vida – conversar com essas pessoas. Muito mais ouvir do que falar. Escutar o que eu não sabia e nunca saberia – porque era a vida deles, afinal. Aprender sobre as plantas no quintal e também sobre o tempo da seca; sobre a falta que filhos e netos fazem, mas também sobre como eles estavam estudando. Que a vida era dura, mas inevitavelmente bela, e inegavelmente melhor.

Estávamos numa estrada de terra no interior do Pernambuco. Era noite e o sinal das estações de rádio oscilava. Havíamos justificado nossos não-votos em Palmeira dos Índios, Alagoas, e seguido viagem. Eu não trabalhava mais na campanha pela reeleição da Dilma seis dias por semana. Agora eu testemunhava pela palavra das sertanejas e sertanejos a transformação que os governos petistas haviam levado para aquelas pessoas e lugares. Dilma não ser reeleita era agora muito pior – eu não via números, eu via vidas.

Paramos quando uma rádio pegou. Não sei em que ponto do mapa. A apuração dos votos estava quase completa. As ruas de não sei onde estavam vazias, serenas. Dentro das casas as TVs falavam. A pálida luz dos postes virou Sol quando ouvimos: Dilma vencera. Nós vencíamos! Eu, mulher, vencia! Dona Nêga vencia! Seu Fortunato vencia! A senhora analfabeta que, lá em 2010, quando fui mesária em Sete Lagoas, me pediu para ajudá-la a votar na “mulher do Lula”, vencia. As famílias atendidas pelo SUS e pelo Bolsa Família no leste de Minas que visitei em 2012 venciam. A cultura vencia. A educação pública viveria. Os negros e gays poderiam continuar respirando com alguma esperança. Quem sabe os índios? As travestis? Quem sabe a população de rua, a camponesa, quem sabe os quilombolas?

Minha mãe, dona de casa, nove irmãos, mãe e criadora de três filhos, vítima de diversas violências ao longo da vida, me disse: desde o dia em que Dilma ganhou, eles não sossegaram. Não aceitaram. Desde então, estão vivendo para tirá-la de lá.

Lixeira em Canindé de São Francisco - SE

Lixeira em Canindé de São Francisco – SE

Voltei a perder meu sono. Senti raiva e ódio verdadeiros. Me senti mal. Fiquei eufórica, revoltada, mau humorada, desanimada. Instável e impotente. De nada havia valido, então? Não o meu esforço, mas os votos de todas aquelas pessoas? O futuro que elas queriam, sonharam, votaram? Suas vontades, suas necessidades, sua cidadania? Será que nós, 54.501.118 pessoas, podíamos só deixar de existir assim?

Parece que perdi. Mas não perdi só. Perderam pessoas que precisam do Estado, da saúde pública, que só podem ter acesso à educação se ela for pública ou particular com bolsa ou financiada, que precisam de casas e terras, que precisam de nomes sociais, que precisam de água tratada, que precisam da previdência social, que precisam de incentivos para a agricultura familiar, que precisam não ser mortas pela polícia, que precisam comer e comprar gás. Eu perdi, mas, antes de tudo, isso não é sobre mim.

Mano Brown disse que “quem quer o impeachment não está preocupado com o país”. E eu adiciono: nunca esteve. Provavelmente nunca estará. Umbigos engolem olhos e ouvidos.

Fiz o que podia como cidadã, jogaram minha cidadania no lixo. Ouvi estórias com as quais eles não se importam nem vão se importar. A macropolítica do meu país me enche de nojo, da maior falta de empatia que já pude sentir.

Mas decidi voltar a dormir bem, comer bem, passar tempo com minha família, dar colo a minha sobrinha que tem um mês de vida, gostar de café, ler um livro de romance de uma nigeriana, tomar água, ler poesia. Não vou me destruir aos poucos porque eles decidiram que assim seria. Não vou perder meu bom humor, meu brilho, minha paz. Eu não vou perder a fé. Me desanimaram, me desrespeitaram, me diminuíram. Mas eu sou mulher e me refaço. As Mães de Maio estão de pé – como sempre estiveram. Dilma segue de cabeça erguida. A Cidade que Queremos BH é construída todos os dias. O TransENEM vai de vento em popa. Índios e estudantes ocupam vias e plenários. Amanhã, amanhã sempre vai ser outro dia. Que pode ser (mais) amargo para quem precisa do Estado e da democracia. Mas nunca vai ser sujo, vergonhoso, egoísta e nefasto como o amanhã dos golpistas.

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

Equipe caminhando com Dona Maricô até a casa de Dona Nêga, no povoado de Serra Vermelha

 

 

A quem interessar possa, breve relato que fiz do Nordeste, em 2014, sobre por que votar em Dilma, com coração e responsabilidade: https://goo.gl/bt8Ig4

O lado bom da crise

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Nunca cursei sequer uma disciplina sobre economia, não travei longos debates sobre, não li nem um livro e fugi de todos os artigos e de algumas reportagens. Sei, no entanto, que parte dessa crise econômica (e também a política, claro) foi forjada por quem nela tem interesse – barões da indústria e do empresariado ávidos por cortar salários, cargos e direitos trabalhistas; a grande mídia dedicada em inflamar o povo contra o atual governo e demais pessoas que só gostam de ter uma boa desculpa para qualquer tipo de impasse. Pois bem. Tanto se falou que ela se fez. A crise real, as imaginárias, e todas as tantas filhas que delas se originaram.

Aqui em casa, a crise, por exemplo, não é de todo filha da crise real. Meu pai perdeu o emprego porque prestava serviço ao antigo governo estadual, psdbista, que foi substituído pelo atual, petista. Com todos os escândalos (muito mais que merecidos, e ainda pequenos diante do tamanho real da merda) envolvendo construtoras e empreiteiras, o setor de engenharia civil não anda às mil maravilhas. E assim meu pai está: em casa, desempregado.

E assim ele voltou a ir à padaria, ao sacolão e ao supermercado. Descobriu um lugar que vende aqueles sacos gigantes de laranja, lá na Lagoa da Pampulha. Ele sabe até que horas o Sol bate onde na casa, e em que lugar as plantas se sentem mais felizes. O encurtamento da grana fez com que ele suspendesse o serviço de TV a cabo. Assim ele reencontrou a TV Brasil, a TV Escola, o Canal Futura e a TV Cultura. Ele leu os últimos livros que comprei, coisa que não fazia há anos. Chegou a colorir desenhos com a irmã, que tem síndrome de Down. Como não podia deixar de ser, ele achou brechas para rir de si e da situação. Olhando minha sobrinha, com 4 dias de vida, constatou: “A gente tá igual. Carecas, sem dente, sem emprego, só comendo e dormindo!”, e ainda conseguiu me entender: “Agora eu tô igual você, fazendo freela, e realmente esse povo não paga…”

Eu que não tente enganar ninguém: meu pai não está feliz. Ele foi criado (pela família, mas muito mais pela sociedade capitalista patriarcal) para trabalhar, sustentar a família, criar os filhos. E só. Sem o trabalho, é como se ele nada fosse, nada valesse. Com os filhos criados, mais um vazio. Ninguém ensinou ao meu pai que ele poderia fazer coisas só porque gostasse, desenvolver habilidades aparentemente inúteis (porque não vendáveis), apreciar o tempo para além do formato de horas-trabalho e a vida para além dos anos necessários de contribuição ao INSS. Ele está se virando para se sentir algo dentro de um sistema que o construiu como produto, criado para usos específicos e com prazo de validade. A re-humanização é penosa.

No entanto, aí estamos todos: nos reinventando. Sou jornalista e faço entregas em domicílio para ajudar no negócio da minha mãe. Viajo por uma estrada erma e lá está, pintado de rosa na porta de madeira: vendemos chup chup. Percebo cada vez mais pessoas comercializando água mineral, pipoca doce, amendoim, raquete elétrica, carregador de celular e etecéteras nos sinais vermelhos. No MOVE, um homem entrou vestido de Elvis Presley, dizendo que está cantando nas ruas para pagar a faculdade de moda da filha – e, de quebra, levar qualquer graça inusitada para os percursos. Bazares, feiras e brechós se multiplicam, incentivando um consumo mais consciente. Artistas antes tímidos colocam seus desenhos na roda para virarem tatuagem, a moça começou a fazer brincos, o outro almofadas, e as broas de fubá e cadernos e quitutes…

Não foi a crise que inventou as pessoas que tem que se virar para sobreviver, nem nunca vai ser certo uns trabalharem tanto e ganharem pouco, enquanto outros nada fazem e se esbaldam. Eu louvo aqui aqueles que não se acomodam. Que não sentam no sofá ou no meio-fio a lamentar a horrível crise que sobre nós se abateu, e nada mais pode ser feito. Prefiro pessoas coloridas, versáteis, dispostas e inventivas, a uma estéril sociedade de graduados que, além dos diplomas, carregam umbigos do tamanho do mundo.

Mixtape #25 – Brota flor

Flor faz brotar mais flor ♡ uma mixtape a essas mulheres, miúdas e infinitas, férteis sementes, sagradas, vindas da terra e feitas de vida.

01- Coletivo ANA – Ana | 02-  Ana Cláudia Lomelino – mãeana | 03- Alceu Valença – Anunciação | 04- Coletivo ANA – Parto | 05- Caetano Veloso – Boas Vindas | 06- Ana Cláudia Lomelino – colo do mundo | 07- Nando Reis – Espatódea | 08- The Temptations – My Girl  | 09- Ellie Goulding – Your Song | 10- Maria Rita – Cria | 11- Adriana Calcanhotto – Ciranda da Bailarina | 12 – Adriana Calcanhotto – Saiba  | 13 – Os Tribalistas – Anjo da Guarda | 14 – Gal Costa – Estratosférica | 15 – Toquinho – Aquarela

8 coisas que você pode fazer contra a corrupção no Brasil sem caminhar ao lado de corruptos

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Contexto: discussão na internet sobre as manifestações do último 13 de março. Chega-se à conclusão de que há corrupção dos dois (que são mais que dois, mas enfim) lados, e então fui questionada: OK, então, de acordo com seu (que era meu) raciocínio, o correto é não fazer nada (pelo país, etc.)?

Me senti motivada a fazer, portanto, uma lista com uma série de coisas que você (qualquer pessoa) pode fazer pelo Brasil (sem bater na tecla do não fure fila, não tenha carteirinha falsificada), ao invés de ser usado numa marcha de corruptos contra a corrupção.

 

  1. SE LIGUE NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DESTE ANO

Sim, 2016 é ano de eleições municipais.

1.1. Não vá votar no cunhado do seu tio porque sua tia pediu, sem ter a menor noção de qual o projeto político dele; não vá dar um Google perneta no dia anterior à eleição e escolher o rosto que mais te simpatizou; tenha a responsabilidade de procurar saber qual candidato ou candidata é mais condizente com o que você quer para sua cidade e ESCOLHA ELE OU ELA DE FATO. Não apenas engula o candidato ou candidata de pessoas próximas a você. Escolha alguém que te faça sentir representado (essa pessoa existe, você só não pode ter preguiça de procurar), de quem você vá lembrar o nome e se sentir impelido a acompanhar, saber, cobrar.

1.2. Escolhido o candidato ou candidata, ENGAJE-SE NA CAMPANHA DELE OU DELA. Os últimos tempos tem nos mostrado que política é um assunto para todos, não é mesmo? Afeta a vida de todo mundo. Um dos maiores geradores de corrupção na política brasileira é o financiamento privado de campanhas: uma empresa coloca grana na campanha de alguém, e depois quer uma contrapartida que vem por meio de favores e benefícios dados pela máquina pública (uma vez que a pessoa em questão foi eleita). Nada justo, né? A reforma política (assunto de mais logo) propõe o fim do financiamento privado de campanhas. Quando você ajuda na campanha do seu candidato ou candidata (pela internet, ajudando a panfletar, a divulgar ações e ideias, conversando com pessoas próximas a você, etc) você retira o poder das empresas e o volta para os cidadãos – que é onde ele sempre deveria estar.

1.3. AINDA DÁ TEMPO DE SE FILIAR! Para se candidatar a vereador/a ou prefeito/a, é necessário ser filiado/a a algum partido. Isso pode ser feito até 06 meses antes das próximas eleições – o que, esse ano, significa até 02 de abril. Você pode procurar o partido com o qual mais se identifica, se filiar, e por que não? Se candidatar. Política não é assunto só para homem velho branco. Política também é para jovens, de todas as raças, todos os gêneros, todas as classes.

 

A gente tem essa ferramenta maravilhosa que é a internet em mãos. Façamos bom uso dela.

 

  1. SE DEDIQUE A CAUSAS ESPECÍFICAS

A essa altura, acho que já percebemos que somos todos contra a corrupção, não é mesmo? Nem a pessoa que mais difere do seu pensamento político a defende ou a quer para o país. Então vamos passar dessa fase, e partir para o que queremos para o Brasil, o que não está bom e como podemos melhorar? Não vale mais dizer só que é “contra a corrupção”. É a mesma coisa que dizer “estou respirando”. Estamos todos juntos nessa. Pare e pense o que te incomoda no seu dia-a-dia como cidadão, e parta para a ação nesse sentido.

2.1. Por exemplo: se você não suporta as condições do transporte público, procure movimentos que tem discutido e atuado na área. Em BH existe o Tarifa Zero, que promove reuniões abertas a todas as pessoas e age junto à Justiça e ao poder público por melhorias na mobilidade. O Tarifa Zero e o Movimento Passe Livre existem em diversas outras cidades.

2.2. Se você se preocupa com a educação, dê uma olhada na agenda dos sindicatos de trabalhadores da área. Eles estão sempre lutando por melhorias. Em Minas Gerais, por exemplo, o SindUte batalha há anos pelo pagamento do piso salarial nacional aos professores. São promovidas manifestações, audiências públicas na Assembleia, reuniões e outros atos e, como bem estamos aprendendo, a pressão popular faz toda diferença para chamar atenção ao que está sendo pedido e discutido.

2.3. Se você quer se engajar, mas não sabe exatamente onde nem como, tenha calma e procure os movimentos organizados. Você será bem-vindo em todos eles. Em Belo Horizonte, o Cidade que Queremos (iniciativa nos moldes do Podemos, da Espanha, entre outras inspirações) tem realizado reuniões abertas desde o começo de 2015, discutindo e pensando propostas para várias questões relacionadas à cidade: segurança pública, meio ambiente, cultura, utilização do espaço público, etc. Você pode somar em alguma das áreas, ou só acompanhar as reuniões, reafirmando que a política é feita e vivida por todos os cidadãos.

 

  1. DEFENDA A REFORMA POLÍTICA

 

Pode ser que sua revolta maior e suprema seja mesmo contra a corrupção. E agora? Como já entendemos que a corrupção não é exclusividade de um partido, ou seja, se trocarmos A por B, na atual conjuntura, a corrupção permanece, é necessário pensar (e combater) a corrupção em um nível mais profundo.

Voltamos, portanto, à reforma política. É importante ressaltar, inclusive, que enquanto o país se paralisa em torno do pedido de impeachment da presidenta eleita, outras votações da agenda política não avançam. Ou seja: estamos parados reclamando da corrupção (de maneira hipócrita, uma vez que a pseudo-reclamação parte de pessoas corruptas), enquanto impedimos que as soluções reais para o problema da corrupção sejam discutidas e votadas. (Um pacote de medidas anticorrupção anunciado pela presidenta Dilma no ano passado, por exemplo, continua engavetado na Câmara. Ele foi proposto, mas os deputados parecem estar muito ocupados fazendo algo mais importante do que colocá-lo na pauta.)

 

3.1. Pelo fim do financiamento privado de campanhas, que, como já foi dito, é uma das maiores origens da corrupção no Brasil. É este financiamento que gera a eterna troca de favores entre empresas e políticos, deixando os interesses da população em último plano (se uma concessionária de ônibus financia a campanha de um prefeito, ao calcular o preço da passagem no transporte público, o prefeito vai beneficiar a mobilidade do cidadão ou os lucros da empresa referida?). Nota de curiosidade: a presidenta Dilma Rousseff vetou o financiamento privado de campanhas, que havia sido aprovado (por manobra do deputado Eduardo Cunha) pelo Congresso.

 

3.2. A reforma política tem vários pontos, que você pode conferir nesse infográfico do G1: Entenda a reforma política

 

  1. RESPEITE OS MOVIMENTOS QUE ESTÃO NA RUA ANTES DE VOCÊ

 

Se você está muito orgulhoso/a de ter ido às ruas no último domingo e ter feito valer seu direito de manifestação e liberdade de expressão (inexistentes num regime militar, aliás), respeite os outros movimentos que ocupam as ruas. Não vale achar que quando você está lá tudo é lindo e válido, mas quando são os outros é baderna, gente desocupada que atrapalha seu trânsito e humor. A rua é um espaço para manifestação de todos, e movimentos como o dos Trabalhadores sem Teto e dos LGBTT tem tanto direito de ocupá-la como você.

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

Essa vem acompanhada de um por favor, por favorzinho: não saia repetindo tudo que lê e ouve por aí. Cheque as informações, procure mais de uma fonte. Acredite: não é porque é jornal tal que ele está falando a verdade – “a verdade”, em si, sequer existe. Existem pontos de vista, interesses, subjetividades. Seu pai, seu chefe, seu colega, seu jornal da hora do almoço, nenhum deles está acima do bem e do mal. Então leia, ouça, assista, até conseguir enxergar quais são os fatos presentes ali. Não é porque você é governista que vai ler o Brasil 247 e tomar aquilo como verdade absoluta; e nem seja a oposição que só se baseia em Revista Veja e Jornal Nacional, por favor. Você não está enriquecendo o debate. Ao se ver pensando ou reproduzindo algo, relembre: de onde isso veio? Eu posso afirmar isso? Ou estou apenas repetindo o que veio não sei de onde? Precisamos ser responsáveis pelo que afirmamos, pelo que compartilhamos. Há muita desinformação sendo disseminada, de todos os lados. Não sejamos usados. Nada que uma busca mais caprichada e atenta no Google não resolva. Ninguém ganha com informações falsas, maldosas, que enganam e manipulam.

 

+++

 

Tudo muito bonito, tudo muito bacana, mas nem todo mundo tem tempo, ânimo ou vontade de sair de casa para ir sacar a política lá fora. Então, assim como a última dica (e as outras também, na verdade), aqui vão ações extras, para fazer do conforto do sofá mesmo (o que não é uma atitude cidadã menor):

 

  1. CHEQUE AS INFORMAÇÕES QUE LÊ E COMPARTILHA

 

É sério. Desinformação é mais perigoso que DST. Você não está lendo errado: a dica aparece duas vezes, porque merece destaque.

 

  1. TENHA AUTOCRÍTICA (numa relax, numa tranquila, numa boa)

 

Se tem tanta gente falando em justiça seletiva, em golpe, em volta da ditadura militar, pare e pense: será que não tem nada a ver mesmo? Todas essas pessoas, entre artistas, cientistas políticos, jornalistas, jornaleiros, historiadores, professores, gente à toa, estão todos viajando? A minha verdade é tão grande que eu não posso cogitar o que o outro está dizendo? Mais um problema que o Santo Google resolve. Procure as semelhanças entre o cenário político atual e o do golpe de 1964. Veja como agia e como age a mídia, a oposição, a elite. Chegue às suas próprias conclusões (mas muita calma, humildade e leitura de multifontes até chegar lá).

 

  1. EXPRESSE SUA OPINIÃO

 

As redes sociais são cada vez mais ouvidas. Os partidos e políticos estão nos lendo, sim. Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, então além de saber muito bem o que você está escrevendo e defendendo, saiba também que é seu direito – contando que não fira o direito e a identidade de mais ninguém. Jogue limpo nas redes, use argumentos, não xingamentos. Cheque o que escreveu antes de enviar, não empobreça nem personalize o debate. Ninguém ganha com isso. Se precisar, o Humaniza Redes te ajuda a colaborar para um universo virtual mais justo, limpo e democrático.

 

Amigo seu é coisa séria pois é opção do coração

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Meus irmãos passaram a vida mudando de cidade em cidade, acompanhando pai e mãe. A gente sempre tinha que se adaptar à nova rua, nova vizinhança, nova escola. Uma estratégia de sobrevivência nos ensinou a criar pequenos universos particulares, que poderíamos carregar no bolso, independente de qual fosse o novo destino.

Hoje vejo que o universo do meu irmão foi erguido com tijolos de lealdade, cristais de bom coração, um balde de Lego inteiro de só querer-bem-com-sinceridade. Ele, desde que sei, é daqueles que carrega os poucos e bons, e vai com eles até o fim – não importa se primavera ou se tempestade.

No bolso, hoje sei que o Lucas levou principalmente a si mesmo. Ele nunca deixou de se ser, na escola pública ou na particular, no interior ou na capital, no quintal de cimento, na varanda de ardósia ou no gramado visitado por ETs.

Quando menino, Lucas pegava as caixas de madeira onde se vendiam uvas e as transformava em violão (com gominhas amarelas sendo as cordas) ou em arco e flecha (com o qual ele atacava mansões de marimbondo e nos deixava presos em casa o dia inteiro, esperando a raiva animal passar). Hoje, barbado, casado, ele compra madeira e constrói os próprios móveis.

Lucas (nunca só) cuidava de um bando de cachorros da rua; ocupou uma fábrica de uniformes abandonada e uma casa em ruínas para fazer delas abrigo para os cães. Todos tinham nome e carinho e Pepita, quando teve filhotes (na fábrica), só deixava o Lucas se aproximar. Pepita, Hannah, Eros. Hoje, morando na sua nova casa e pagando seu aluguel, ele faz do seu lar, lar dos animais também. Maggie, Beemo, Link, Kheera, Ragnar.

A gente brincava muito de Lego e ele estava sempre embrenhado em ferramentas; hoje, trabalha projetando peças no papel e no computador. A gente montava um laboratório na garagem para dissecar cogumelos e outras formas de vida; hoje ele tem sua própria loja virtual para vender coisas nerds. A gente saía jogando milho e feijão pelos vasos de planta, querendo ver tudo brotar; hoje ele tem planos de ter uma horta em casa, que eu sei que vai vingar.

Ao invés do tradicional futebol, meu irmão fez capoeira, xadrez e ponto cruz. Ao invés do violão, teve um pandeiro e uma gaita. Quando os jovens pediam uma moto aos pais, meu irmão implorava por um cavalo. Ele que me levou para acampar (não sem me fazer medo), para cachoeiras (não sem fazer bullying pelo meu medo), para o que tem para lá dos muros-seguros.

Ele é dono de um coração que vai de Belo Horizonte até Curitiba, passando por Sete Lagoas, Manaus, Pouso Alegre, Goiânia e mais umas quebradas por aí. Incapaz de fazer um malzinho que seja a qualquer pessoa que seja. Incapaz de não ser leal, de não se dedicar, de não ser bom. De não ser ele, enfim.

Do meu irmão, você sempre vai ouvir o riso. Ele vai falar só quando sentir vontade. Mas o riso – o riso vai sair forte, inteiro, de verdade. Do desenho que você nunca viu, de um caso de anos atrás, de qualquer besteira com o pai. O riso vem e ocupa o ar, a casa, o peito. Vem pelos olhos dele que brilham, passando pelas sardinhas até transbordar, como bolas de gude desaguando de um bolso recheado.