Apesar de adulta (para reler aos 50)

sobrequemeusou

Comecei este ano com muito medo de morrer. Com a morte vem o fim de tudo o que batalhamos. E para que batalhar, se vamos morrer? Não existe resposta confortável e isso vinha me deixando muito melancólica ultimamente. Conversando com a minha terapeuta, chegamos a seguinte conclusão: isso tudo é medo de virar adulta. É verdade, eu tenho pavor de crescer. Odiei precisar fazer 13 anos e agora estou apavorada com isso de formar na faculdade, procurar um emprego, ganhar minha independência. E se todos os meus planos não passarem de imaginação? E se eu virar um adulto ressentido que diz “na sua idade eu também tinha essa ilusão”? Tenho horror a essas possibilidades. Pior que morrer de corpo e alma, é morrer só de alma.

Como não posso salvar o futuro neste exato momento, nem amanhã ao acordar, resolvi fazer uma lista de coisas que eu gostaria de fazer antes dos cinquenta, e a primeira delas é continuar viva. Se, aos cinquenta, eu voltar aqui para ler essa lista, é porque eu ainda valho a pena. Se não, eu espero estar sendo feliz ao meu novo modo, apesar de apática (ou desmemoriada). E que eu vá além.

Que nos próximos 28 anos, eu consiga: publicar uma reportagem de quatro páginas em uma revista que tenha fãs, ter uma sessão de crônicas em algum lugar com leitores e salário, morar em cinco cidades diferentes, conhecer Barcelona, contar histórias para meu filho, filha, filhos antes de dormir, respeitar a individualidade desses filhos e ter o diálogo aberto com eles sobre todo tipo de assunto. Gostaria também de não me afastar da minha irmã, ter paciência com os meus pais e suas manias cada vez mais marcantes, amar alguém de um jeito melhor do que amei na adolescência (mesmo não durando para sempre), ter, pelos menos, três melhores amigos das antigas ao meu lado.

Coisa que eu já faço e gostaria de continuar fazendo até e depois de lá: colocar as mãos nos pés com as pernas esticadas, observar o céu e sentir-me alumbrada, comer brigadeiro com pipoca, amar cachorro quente, tirar fotos, editá-las e revelá-las, ser eclética nas amizades, nas músicas e nos costumes, ficar contente ao tomar café, cantar a plenos pulmões enquanto dirijo, dançar na rua quando a música for muito boa, ir ao cinema sozinha satisfeita com a companhia de uma coca-cola 500ml, escrever.

Mais do que tudo, eu quero respeitar os sonhos dos mais novos – bem como os dos mais velhos – e quero poder ajudar a todos que me pedirem socorro. Seria também extremamente interessante se minha ansiedade continuasse diminuindo, sem que eu perdesse a paixão pela vida. Dito isso, agora eu posso viver em paz. Meus pensamentos ganharam o mundo. Pelo menos o mundo de quem se importa o suficiente para ter lido até aqui. Sei que essa Clara está a salvo dentro de vocês. Espero que ela também se salve dentro de mim.