Ando meio

espelho

Eu vivo entre o tudo e o nada e já faz muito tempo. De tanto dançar os dedos querendo alcançar algo, trago as mãos ocas. De tanto querer me multiplicar, me divido, me desfaço, e quase não sobro.

Desde sempre, me disseram pra ficar tranquila, que isso era só o que sou: um monte de beirada e nada inteiro. Um paquerar com tudo e não casar com nada. Uma série de ensaios sem peça final, amostras grátis de tudo quanto é produto, um mosaico diverso, curioso – mas estilhaçado e confuso.

Nunca estou toda em nada e acabo cheia de vazio, de semi, de semente que a chuva leva antes de virar margarida. Sempre quase lá, mas nunca o suficiente; sempre espalhada pelos lugares, mas nunca toda presente.

Antes tivesse sido emo por uns meses pra só depois gostar de axé e nunca ter obrigado um abadá e uma munhequeira a conviverem pacíficos dentro de uma mesma gaveta. Antes tivesse mudado pra praia e colecionado bichos de pé por um verão de cabo a rabo, em vez de viver nesse constante e frustrante flerte com o verde e a água que me fogem na cidade.

Melhor seria ter me filiado àquele partido, ainda que só por uma eleição, ainda que depois arremessasse longe o broche, do que essa simpatia perdida que desfila comigo distraída pelas ruas. Melhor seria ter sido sua amiga por um dia, unidos só pela cerveja, do que passar a vida te admirando de longe, feito namoradeira.

Preferia ter te amado sem faltar nenhuma artéria por um semestre a essas nossas bodas de ouro insossas. Preferia ser vegetariana e depois carniceira, do que viver desatando e atando com o lombo de porco.

Talvez se eu tivesse investido toda minha energia em uma coisa de cada vez, eu teria chegado a algum outro lugar, que não esse prisma engraçado onde só enxergo migalhas de mim pelo mundo. Farelo que não dá uma torrada, quanto menos uma bruschetta das boas.

Eu quis estar aqui e ali e em mim e no outro, mas no final só tenho um corpo, que agora ri da pretensão. Ri dos trajetos tortuosos que se imbricavam e confundiam sem ter nunca destino único. Ri de eu dando voltas em mim, vazia e cheia de tudo que cacei e guardei nesse armário sem fundo e sem porta, com a perna torta em um mundo finalmente longe e grande demais.