Amor em tempos de cólica

bloco do amor

Não sei exatamente quando começou, mas qualquer dia me peguei pensando: “então isso é crescer?”. É isso que falavam que é bonito na gente quando somos novos, mas que vai se perdendo aos poucos, até desaparecer?

Não sei nem determinar o que é o “isso”. A inocência, a espontaneidade, a prontidão em demonstrar afeto?

A primeira vez que me vi vendo o amor subir à minha mente, pedir para virar linguagem e eu o silenciar até que ele desistisse foi há pouco mais de dois meses. Éramos um grupo de amigos se reencontrando um ano após uma longa, transformadora e inesquecível viagem; um de nós era agora pai e levou sua flor, com exato um mês de idade, para que a conhecêssemos; era a primeira vez que víamos o filme que juntos fizemos. Para uma aficionada por datas, como eu, era um prato cheio. Para uma apaixonada por eles, como eu, era lua cheia.

Mas algum departamento de mim tentava domar os arrepios e dizer: ainda é só uma exibição. Uma reunião. Uma noite.

Em determinado ponto eu não resisti, tirei uma foto da gente ali sob o céu, as cobertas e o sertão que logo se projetaria no ar. No celular a foto ficou. Guardada. Assim como tudo de bom e especial que senti naquela noite. Só pra mim, sem ninguém nem saber que existiu – e sem que nada daquilo pudesse levar alguma cor a mais a mais alguém no mundo.

É que carrego esse pensamento de que pra lá da gente os sentimentos bons também têm uma função. É um primo torto do “a felicidade só é real quando compartilhada”. Lá fora, povoando o mundo, eles têm qualquer possibilidade de inspirar, colorir, dar forças ou esperanças, fazer sorrir, fazer respirar. Que “qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Então por que guarda-lo? Por que o ar imóvel da janela fechada no lugar do vento depois da cortina?

Amor também existe em silêncio, é claro. É lindo, gostoso e puro. Mas não se trata de microfonar felicidades a cutucar as não-felicidades do mundo. Trata-se só de querer deixar o amor circular, por acreditar que ele pode ser brisa fresca, água límpida, semente do verde-vivo de mais logo.

Quanto mais a consciência não nos permite esquecer as injustiças, desigualdades e misérias humanas, mais amar parece um ato egoísta, e não revolucionário. Mais o amor parece sem lugar, ou a gente imaturo quando tanto ama. Acho que foi assim que minha torneira começou a secar: de repente o amor já nem parecia bem-vindo; declará-lo era um esvaziamento das complexidades da existência; e querer que ele existisse em linguagem, não só entre dois ou cinco ou dez, mas jogado no céu feito confete, era algum tipo de reafirmação vil ou de inconveniência dispensável.

Acho que amar é primeiro pra gente, sim. Alimento da alma. Mas depois de alimentada e luzidia, a alma quer também abraçar a outra e celebrar a magia da vida.

Foi preciso, portanto, receber uma demonstração de afeto muito da gratuita para que eu me lembrasse disso tudo. Foi preciso que viesse de alguém distante, grisalho e com filho da minha idade, para me contar que o tempo não nos leva isso se não quisermos que isso se vá. Que não há tempo tão curto que não se alargue para fazer caber um hiato de bem.  Que pra um tanto amor possa ser demais; pro outro deva ser mais vivido que falado; pro outro seja ainda uma propaganda falsa daquilo que se quer fingir ser. Provavelmente, é um pouco disso tudo. Mas é também uma porção de impulsos iluminados que percorrem o ser e, de tão vivos, energizantes e encantados, me pedem dar uma volta lá fora – porque qualquer bem pode fazer.

Economizei algumas palavras de afeto, microcelebrações de encontros, manifestações de gratidão e de vida. Não me sinto mais rica. A sombra de que isso possa significar ser adulta, madura, discreta e sensata me ronda; mas a possibilidade de que isso seja apenas deixar murchar uma flor insistente que carrego no peito é mais assustadora.

Amor é adubo, pro meu jardim e pra floresta do mundo. Precisamos de muitas coisas além do amor. Precisamos que ele seja muito menos uma palavra e muito mais uma ação positiva efetiva nas sociedades. Mas precisamos dele – talvez ainda mais em tempos difíceis como esses.

Deixar chover. Deixar molhar. Deixar amar.