A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro

aninha-sem-tesao

“Toca Aninha Sem Tesão” eu dizia para qualquer amigo meu que pegasse o violão. A maioria não conhecia essa música, muito menos a banda que tocava ela: Faichecleres. Eu, do alto da minha virgindade, adorava o som sacana dos caras. Um pouco culpa da sonoridade retrô do rock n’ roll de suas canções, mais culpa ainda da minha enorme libido enrustida de adolescente. “Toca Aninha Sem Tesão” eu insistia, até que alguns amigos se arriscaram a aprender seus acordes só para me fazer mais feliz na rodinha de violão.

A batida frenética mal iniciava e eu já começava a delirar, pulando a cada fim de riff e chacoalhando os quadris como se estivesse em um baile dos anos 1960. “Sempre que eu chego mais perto, você pede pra eu parar… rá ráa, rá ráa, rá-rá rá-rá rá-ráaa” começava a letra. Fosse na rodinha de violão ou no meu quarto, eu enchia os pulmões para entoar cada palavra em alto e bom som. “Vem cheia de não me toques, cachorro tire as mãos de mim… E não dá, não há tempo a perde-ê-er”, continuava…

Eu gostava muitto dessa música e a batucava na carteira da oitava série – a última da primeira fileira à direita da sala – enquanto cantarolava sua letra no meio da aula de matemática. O João Pedro, que sentava na minha frente, me mandava calar a boca e sempre acabava levando esporro da professora, já que eu a convencia de que era ele quem estava fazendo barulho na hora errada. Logo ele também desistiu de lutar contra o meu fascínio pela canção e, no fim, acabou aprendendo a cantá-la também.

Eu tinha 15 anos. Eu não fazia ideia de que estava idolatrando uma composição sobre estupro. As frases eram claras, eu que não entendia muito bem. “Pois sei que fantasias sujas explodem dentro de você… Cansei, cansei de me humilha-á-ar” – prosseguia o vocalista – “e agora nem que seja a força, nem que chore sem parar, ninguém vai te ouvir gritar”, então o resto da banda fazia um coro à la Beatles em Twist And Shout: “aaah!, ahhh!!, áaaah!!!”. O trio cantarolava os gritos da vítima de estupro. Era isso que aquele barulho ilustrava. Eu cantarolava junto.

E antes que me perguntem: sim, eu sabia o que era estupro. Eu já tinha medo de ser estuprada. Eu tenho medo de ser estuprada desde que a minha babá disse estar acontecendo alguns casos de estupro em BH. Ela me contou bem assim, à caminho da natação: tem alguns homens transando à força com mulheres aqui na cidade e fugindo por uma mata tipo essa aqui do bairro. Eu tinha 9 anos e, desde então, eu tenho medo de andar perto de matas que – supostamente – facilitam a fuga de estupradores. Então, é claro que, oito anos após esse episódio, eu tinha consciência do que era um estupro. Eu só não entendia muito bem.

Naquela época, na oitava série, aos 15 anos, eu tinha para mim que estupro era uma coisa que ocorria na rua. Você estava andando e – vrá! – um filho da puta desconhecido aparecia, te encurralava em algum beco e te largava lá, violada, com uma vergonha tão grande que você não conseguia pensar em mais nada, só em tirar a própria vida. Eu não tinha noção que o estupro, na maioria das vezes, parte de algum conhecido: de um parente, de um colega ou, até mesmo, do seu namorado. Eu não sabia que Aninha Sem Tesão era um apelido escroto para uma menina que, simplesmente, não queria transar com o eu lírico da música.

E chegava o refrão: “Aninha sem tesão, não vejo condição, é superficial / e a minha intenção, é te dar meu coração, e não te fazer mal / Eu bebo teu licor, Aninha sem pudor / Tu come meu mingau au au, não vai fazer dodói / Uh uh uh…” O estupro era romantizado. Eu percebia que o cara estava sendo babaca ao prometer o coração à menina. Era claro para mim que o eu lírico estava falando aquilo só para ela querer transar com ele. Eu achava graça na canalhice dele. Eu me divertia. Eu continuava a cantar: “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába…”, de novo, “uaú shubi duba lá bá uába, uaú shubi duba lá bá uába… Hey!” e vinha o solo de guitarra.

Passaram-se um ano, dois, e eu continuei gostando da canção. Mais para a frente, quando o shuffle do iTunes me surpreendia com ela, era sempre uma alegria muito grande. Eu nunca pulava para a próxima. Passaram-se três, quatro anos, e nada mudou. Foi só no início deste ano, dez anos depois, que eu entendi do que Aninha Sem Tesão se tratava. Demorou isso tudo para eu compreender seu real significado. Poderia, inclusive, ter demorado ainda mais se o assunto não tivesse entrado no debate cotidiano graças às feministas (e eu me incluo nessa).

Foi foda admitir que minha música favorita aos 15 anos era sobre estupro. Foi triste me dar conta que eu me divertia com uma letra tão explícita sobre violência sexual. Porém, apesar dessa dose de decepção com minha ingenuidade adolescente, foi importante ter, enfim, essa compreensão. Ficou claro, de uma vez por todas, que ouvir a experiência do outro é fundamental para compreendermos, cada vez mais, as nossas próprias vivências. Ouvir o outro nos torna mais humanos e, principalmente, nos torna mais nos mesmos.

A minha música favorita aos 15 anos era uma apologia ao estupro. Não é mais. A única coisa que eu posso fazer agora é: trabalhar para que eu continue nessa constante evolução – e a nossa sociedade também.


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