Amigo seu é coisa séria pois é opção do coração

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Meus irmãos passaram a vida mudando de cidade em cidade, acompanhando pai e mãe. A gente sempre tinha que se adaptar à nova rua, nova vizinhança, nova escola. Uma estratégia de sobrevivência nos ensinou a criar pequenos universos particulares, que poderíamos carregar no bolso, independente de qual fosse o novo destino.

Hoje vejo que o universo do meu irmão foi erguido com tijolos de lealdade, cristais de bom coração, um balde de Lego inteiro de só querer-bem-com-sinceridade. Ele, desde que sei, é daqueles que carrega os poucos e bons, e vai com eles até o fim – não importa se primavera ou se tempestade.

No bolso, hoje sei que o Lucas levou principalmente a si mesmo. Ele nunca deixou de se ser, na escola pública ou na particular, no interior ou na capital, no quintal de cimento, na varanda de ardósia ou no gramado visitado por ETs.

Quando menino, Lucas pegava as caixas de madeira onde se vendiam uvas e as transformava em violão (com gominhas amarelas sendo as cordas) ou em arco e flecha (com o qual ele atacava mansões de marimbondo e nos deixava presos em casa o dia inteiro, esperando a raiva animal passar). Hoje, barbado, casado, ele compra madeira e constrói os próprios móveis.

Lucas (nunca só) cuidava de um bando de cachorros da rua; ocupou uma fábrica de uniformes abandonada e uma casa em ruínas para fazer delas abrigo para os cães. Todos tinham nome e carinho e Pepita, quando teve filhotes (na fábrica), só deixava o Lucas se aproximar. Pepita, Hannah, Eros. Hoje, morando na sua nova casa e pagando seu aluguel, ele faz do seu lar, lar dos animais também. Maggie, Beemo, Link, Kheera, Ragnar.

A gente brincava muito de Lego e ele estava sempre embrenhado em ferramentas; hoje, trabalha projetando peças no papel e no computador. A gente montava um laboratório na garagem para dissecar cogumelos e outras formas de vida; hoje ele tem sua própria loja virtual para vender coisas nerds. A gente saía jogando milho e feijão pelos vasos de planta, querendo ver tudo brotar; hoje ele tem planos de ter uma horta em casa, que eu sei que vai vingar.

Ao invés do tradicional futebol, meu irmão fez capoeira, xadrez e ponto cruz. Ao invés do violão, teve um pandeiro e uma gaita. Quando os jovens pediam uma moto aos pais, meu irmão implorava por um cavalo. Ele que me levou para acampar (não sem me fazer medo), para cachoeiras (não sem fazer bullying pelo meu medo), para o que tem para lá dos muros-seguros.

Ele é dono de um coração que vai de Belo Horizonte até Curitiba, passando por Sete Lagoas, Manaus, Pouso Alegre, Goiânia e mais umas quebradas por aí. Incapaz de fazer um malzinho que seja a qualquer pessoa que seja. Incapaz de não ser leal, de não se dedicar, de não ser bom. De não ser ele, enfim.

Do meu irmão, você sempre vai ouvir o riso. Ele vai falar só quando sentir vontade. Mas o riso – o riso vai sair forte, inteiro, de verdade. Do desenho que você nunca viu, de um caso de anos atrás, de qualquer besteira com o pai. O riso vem e ocupa o ar, a casa, o peito. Vem pelos olhos dele que brilham, passando pelas sardinhas até transbordar, como bolas de gude desaguando de um bolso recheado.