Alguém também me ensinou a roer as unhas, mas isso não sei quem foi

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Uma vez escrevi que  “não sou nada mais que uma peça no colorido quebra-cabeça que é a minha história”. Eu queria dizer disso tudo (e tod@s) que, ao longo da vida, vão fazendo a gente ser quem é.

Lá estão os aparelhos ideológicos do estado, sim, sempre. A Escola ensinando a obedecer, a Igreja ensinando a aceitar sem questionar, a Família ensinando a ser correto – seja lá o que isso signifique na prática. Em várias culturas, países, tradições diferentes, como grandes verdades universais. Mas a realidade é que é da ordem do imprevisível e incontrolável quais serão as marcas que realmente seguirão conosco. Elas surgem despretensiosas, em qualquer hora do recreio, mas não se vão quando o sinal volta a tocar.

Durante os anos de 2000 e 2001, morei em Goiânia com minha família. Tive uma amiga incrível, com quem criei o jornal CPS, que significava Crianças Para Sempre. Nós tínhamos 8 ou 9 anos de idade. Lá pelos 19, fui procurá-la no Facebook, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que ela, assim como eu, estudava Jornalismo? Nunca mais nos vimos. Eu poderia falar que o jornalismo foi a grande marca do nosso encontro na vida, mas seria uma mentira descabida. O jornal era só mais uma das nossas trocentas brincadeiras inventivas.

A herança-bônus da Larissa para mim foi um dia de aula em que a professora (tia Sandra, se não for invenção minha) disse: “que gracinha essa Larissa. Toda vez que entrego um papel para ela, ela fala ‘obrigada’.” Eu e Larissa éramos suadas, descabeladas, descalças; nunca inteiramente limpas, caladas ou comportadas. Mas esse cuidado do fundo do ser dela me tocou – e foi para sempre. A bala Chita no sinal vermelho, o troco, o panfleto. Todos esses ‘obrigadas’ nasceram de Larissa e passaram a morar comigo também.

Em Sete Lagoas, na passagem do ensino fundamental para o médio, conheci uma figura memorável em vários sentidos (tão querida que carregamos, eu, ela e mais outras preciosidades, um coração tatuado coletivamente no pulso). Débora leva em torno de si algumas dezenas de boas e divertidas características. Mas, de novo, há algo dela que carrego no cotidiano, no todo dia que meu ser é.

Dando nome a alguns dos adjetivos, Débora é hilária e charmosa ao sentir raiva de alguém. Eis que um dia ela sentenciou: “Que raiva, nem me cumprimentou pelo nome!”. E assim, simples como a chuva que cai, eu percebi que o nome importa. Descobri que eu me sentia bem ao ser cumprimentada pelo meu nome, e que provavelmente também faria esse bem às pessoas que assim eu cumprimentasse.

A lição de Débora varia de duas a quatro sílabas. Não deve somar um décimo de segundo, nem um mililitro de saliva. Mas, a cada vez que eu a utilizo (em todos os dias em que falo), é luz e delícia no peito. É olhar para alguém, por mais distante que esse alguém seja, e dizer (sem dizer): ei, te conheço, te reconheço, você para mim importa, seu sorriso importa, o deus que está em mim saúda o deus que está em você. Três sílabas, 0.08 segundos, muito menos saliva do que eu gasto cuspindo no ferro de passar roupa para ver se ele já está quente.

E agora chegamos ao meu aprendizado duplo, que eu só soube que aprendi depois de passar numa prova que nunca fiz. Por gentileza pura e gratuita, a Bárbara, uma estudante da mesma faculdade que eu, resolveu me falar que eu sabia abraçar, que eu abraçava “de verdade”. E eu pensei “uai, maizé?”.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi o abraço da minha irmã. Eu costumava falar que ela tinha os braços de um grilo… até que ela te abraça com a força que a Terra usa para girar todos os dias. Quando a gente se encontra e a Lívia vem com aquele abraço, ela une corpo, alma, espírito, mente, coração, todos os órgãos, chackras, neurônios, sentimentos, tudo ali, naquele espaço, naquele tempo, naquele encontro, naquele abraço. Nenhum centímetro do perispírito divaga por qualquer outro lugar. É só ali, naquele amor, que se quer estar. O abraço dela é o maior dos gestos silenciosos a gritar: estamos junt@s, e isso é maravilhoso, eu não queria estar em nenhum outro lugar, que bom que aqui estamos, deixa eu te esmagar!

Fernanda, minha segunda professora de abraço na escola com E minúsculo, sem boletim nem diploma, me deu a primeira (não)aula no dia em que nos conhecemos. Eu estava tentando uma vaga de estágio no programa em que ela era produtora e repórter, e tinha certeza que a entrevista tinha sido um fracasso. Como pegava mal eu tentar sair derretendo discretamente pela janela do sexto andar, fui até a portaria do prédio para ir embora, e Fernanda me acompanhou. Antes de ir, ao lado da roleta, ela me deu um abraço que tenho certeza que foi na alma também. Eu pensei: “é, acho que até mereço um abraço desse, depois desse desastre de entrevista”. Mal sabia eu que aquele abraço iria se repetir diariamente, pelos dez meses em que juntas trabalhamos. Mal sabia eu que o abraço da Fernanda é uma tatuagem que ela sai distribuindo pelo mundo, a encher os caminhos de sentido, de força, de fé, de afeto.

Aprendi a tabuada, a olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, a teoria da agulha hipodérmica e também uma porção de coisas belas, intangíveis e infinitas – que ninguém teve a intenção de me ensinar. Pólens que abelhas deixaram cair em seus voos e (obrigada ao ar, ao vento, ao céu) floresceram em mim. Eu sou feita de uma porção de pessoas normais, que sentem raiva, brigam e às vezes jogam papel no vaso. Levo de presente o que elas tem de mais humano e incrível – que são elas mesmas, em seus pequenos e despretensiosos detalhes.

Às mestras da minha vida, obrigada pelas sementes. Por onde flor, vocês vão comigo.